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You are here: Home Imprensa Clipping Novembro 2007 21/11/2007 08 de January de 2009
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21/11/2007

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Quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Comentários, dúvidas e sugestões:

sercom@inpi.gov.br

Brasil pode disputar presidência da Ompi
Empresa local perde espaço em vôos internacionais e déficit quadruplica
A grande reviravolta?
Bom senso estratégico
Imagem de pluralismo do Ipea sofre um golpe
Café atrai apaixonados
Votorantim entra no negócio de zinco nos EUA e China 
A indústria terá outros 2007?
Doha faz seis anos e não há nada a comemorar
Emergentes cobram uma agenda dos EUA e advertem contra manobras 
Lula e Cristina Kirchner debatem comércio sem dólar
Repasses eleitorais do PAC terão veto governista
Wal-Mart leva marca gaúcha Nacional a Santa Catarina
Células-tronco, boa notícia
A nova Finep
"PAC da Ciência" aumenta bolsas e facilita importação
Técnica gera célula-tronco sem embrião
É cedo para enterrar a clonagem
Sem ferrovias, rodovias, hidrovias e portos
Um novo padrão monetário mundial?
Brasil e Alemanha querem fortalecer cooperação tecnológica
Lula anuncia investimentos de US$ 28 bilhões em tecnologia

 

Brasil pode disputar presidência da Ompi Volta

O Valor Econômico
De Genebra
21/11/2007
 

O Brasil está considerando disputar a direção-geral da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Ompi), revelou ontem o embaixador brasileiro em Genebra, Clodoaldo Hugueney. Através de seus tratados, a entidade regulamenta a produção, distribuição e uso de tecnologia e do conhecimento. "O Brasil vê necessidade de que essa entidade leve mais em conta a dimensão do desenvolvimento", disse Hugueney.

O Brasil tem acumulado derrotas por cargos internacionais no governo Lula. Perdeu a direção-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), onde apresentou a candidatura de Seixas Correia. Também fracassou na tentativa de obter a presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para João Sayad. E não conseguiu votos suficientes para obter o comando da Organização Internacional de Telecomunicações para Roberto Blois.

Já são dois os candidatos no país ao comando da Ompi: Graça Aranha, ex-presidente do Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) e atualmente funcionário da Ompi, e o atual presidente do INPI, Jorge Ávila.

Para a Ompi, a concorrência pode ser ainda mais ferrenha. Até ontem, havia mais de dez pré-candidatos aguardando a demissão formal do sudanês Kamil Idris, pressionado pelos industrializados sob o argumento de malversação na administração da entidade. Uruguai, México, Cingapura, países africanos, França, Suíça e Polônia começam a testar o terreno para seus eventuais candidatos. A Ompi está paralisada, depois que os Estados Unidos e outros países ricos bloquearam a aprovação do orçamento para os próximos dois anos por causa da recusa de nações africanas de tratar de alegações de fraude atribuídas a Kamal Idris

Uma vítima colateral tem sido a implementação da "agenda do desenvolvimento" que o Brasil e a Argentina conseguiram, enfim, aprovar este ano. A "agenda" tem 45 recomendações para dar novo rumo à Ompi e a seus arcabouço jurídico sobre patentes. Ela não reforma as regras globais de patentes - é mais um calendário de boas intenções. Mas serviu para os países emergentes questionarem o atual sistema de patentes, monopólios e dificuldades ao acesso a remédios, tecnologias e outros bens produzidos nos países ricos.

Para o embaixador Hugueney, o Brasil à frente da entidade ajudaria a implementar a agenda do desenvolvimento. Mas uma candidatura brasileira será certamente combatida também pelo setor privado, a começar pela indústria farmacêutica, que não esconde a inquietação com a posição do país sobre patentes. (AM)

 

Empresa local perde espaço em vôos internacionais e déficit quadruplica Volta

O Valor Econômico
Daniel Rittner e Alex Ribeiro
21/11/2007

A derrocada da Varig e a investida de companhias estrangeiras no Brasil fizeram explodir o déficit do país com as transações de passagens aéreas internacionais, chegando a valores anuais na casa de US$ 1,7 bilhão. A perda de divisas na aviação equivale a um quarto dos pagamentos líquidos de juros da dívida externa pública e privada previstos para 2008.

Nos últimos quatro anos, o déficit na conta de passagens aéreas do balanço de pagamentos se multiplicou por quatro, conforme mostram dados do Banco Central. Nesses números, estão os bilhetes aéreos vendidos por empresas brasileiras a estrangeiros (que representam uma entrada de divisas) e as passagens vendidas por companhias estrangeiras a passageiros brasileiros (saída de divisas). Tradicionalmente, as aéreas estrangeiras sempre tomaram uma fatia relevante do mercado brasileiro. Na avaliação do BC, porém, a quebra da Varig abriu mais espaço para as concorrentes estrangeiras, que nos últimos 12 meses encerrados em setembro venderam US$ 2,117 bilhões em passagens aos brasileiros - quase o dobro de 2005.

Em 2003, quando a Varig já vivia grave crise financeira, mas ainda sem repercussões maiores sobre a área operacional, o déficit do país em viagens aéreas internacionais era de US$ 418 milhões. Em 2006, depois de a crise da antiga empresa da Fundação Ruben Berta ter chegado ao auge, o déficit brasileiro em passagens aéreas subiu para US$ 1,476 bilhão. Neste ano, mesmo com os avanços da TAM e o início da retomada dos vôos ao exterior da Varig, comprada pela Gol, o déficit atinge o patamar inédito de US$ 1,7 bilhão, nos últimos 12 meses encerrados em setembro.

"O mercado sentiu muito a saída da Varig", afirma o presidente da Associação Brasileira das Agências de Viagens (Abav) no Distrito Federal, João Quirino. Na dificuldade de encontrar passagens em companhias de bandeira nacional, muitos turistas "experimentaram e gostaram" dos serviços oferecidos pelas aéreas estrangeiras, principalmente européias, observa o empresário.

Destinos que eram atendidos pela Varig, como Cidade do México e Londres, passaram a ter vôos de empresas estrangeiras como única alternativa. Por decisão da 8ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, que cuidava do processo de recuperação judicial da Varig, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) ficou impedida de redistribuir as autorizações de vôos internacionais para outras empresas brasileiras, como TAM e OceanAir, que pleiteavam várias rotas. A saída encontrada pela agência foi renegociar os acordos bilaterais de serviços aéreos: em troca de novas freqüências para as empresas brasileiras, sobretudo para a TAM, os outros países conquistaram o direito de ampliar os vôos de suas companhias ao Brasil. Foi o que ocorreu, por exemplo, com França e Itália.

De acordo com o mais recente Anuário Estatístico da Anac, a participação das companhias nacionais no total de passageiros transportados do Brasil para o exterior diminuiu de 53% para 33% nos últimos anos . O recuo vinha ocorrendo de forma gradual desde a segunda metade da década passada, mas acelerou-se de 2005 para 2006 - com a perda de nove pontos percentuais na fatia de mercado das brasileiras.

Até o fim do ano, a TAM deve inaugurar mais dois destinos na Europa - as cidades de Frankfurt e Madri -, com a operação de cinco novas aeronaves de grande porte (dois A340 e três A330), que serão incorporadas à frota atual de 13 aviões de longo curso. Hoje controlada pela Gol, a Varig finalmente retornou com força ao mercado europeu e prepara sua volta também ao México. Mas, segundo indicadores da Anac, a oferta de assentos das companhias brasileiras para o exterior ainda é 25% menor do que a oferta em janeiro de 2006, quando a antiga Varig já caminhava em direção à ruína.

Com o turismo ao exterior bastante aquecido, em um momento de renda em alta e queda do dólar, a oferta de assentos ainda reduzida tornou praticamente certo o bom desempenho das aéreas estrangeiras no Brasil. "Até o fim de fevereiro, já não existem mais tarifas promocionais em quase nenhum vôo para a Europa", diz o presidente da Abav-DF.

Para recuperar os passageiros que migraram para as concorrentes estrangeiras, as empresas nacionais terão um caminho complicado pela frente. "Vai ser muito difícil trazer esses passageiros de volta", acredita o consultor em aviação Paulo Bittencourt Sampaio. Além dos serviços novos, que muitas vezes constituem um diferencial em tempos de poltronas apertadas e refeições cada vez mais econômicas, a aviação tem uma peculiaridade importante para fidelizar o cliente: os programas de milhagem. Tendo voado pela primeira vez em uma aérea estrangeira, a adesão a esses programas são um incentivo nada desprezível para repetir a experiência, comenta.

Sampaio lembra que, mesmo com a perda de qualidade nos serviços diante de sua crise financeira, muitos passageiros brasileiros optavam em voar pela Varig para prestigiar e "dar uma força" à empresa. Para ele, isso já não acontece com a TAM. "A Varig galvanizava mais o sentimento patriótico", nota o consultor.

André Castellini, economista da Bain & Company e analista do setor aéreo, relativiza esse diagnóstico. Em destinos para onde a TAM compete em igualdade de vôos com as concorrentes estrangeiras, ela tem pelo menos 50% dos passageiros da rota. Castellini observa, porém, que ainda falta à companhia uma marca mais consolidada no exterior para fortalecer suas vendas a passageiros estrangeiros que visitam o Brasil.

 


 

A grande reviravolta? Volta

O Valor Econômico
Por Martin Wolf
21/11/2007

Será que os EUA entrarão em recessão? Duas respostas precisam ser dadas a essa indagação: primeiro, ninguém pode ter certeza; e, segundo, isso não tem importância. Uma pergunta muito mais importante é se a economia americana continuará a experimentar uma "recessão com crescimento", ou seja, um período prolongado de crescimento abaixo da tendência. A resposta é "sim".

A definição americana padrão para recessão é: dois trimestres de crescimento econômico negativo. Isso exige, a um só tempo, muito e pouco: muito, porque exige uma queda absoluta na produção, um evento infreqüente numa economia em crescimento; pouco, porque é coerente com desemprego crescente e queda na utilização de capacidade. Mas uma prolongada recessão de crescimento seria, provavelmente, muito mais perturbadora do que até mesmo uma recessão profunda, desde que esta termine rapidamente.

A maioria dos analistas acredita que a tendência da taxa de crescimento da economia americana é de aproximadamente 3% por ano. Um crescimento abaixo dessa taxa, portanto, é uma recessão de crescimento. Neste ano, a expectativa é de um crescimento em torno de 2%. No ano que vem, sugere o consenso, o crescimento americano ficará um pouco acima de 2%. Isso assinalaria um descompasso acumulado em torno de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em um prazo de dois anos. Assim, os EUA já estão em uma recessão de crescimento.

É fácil ver por que a demanda americana interna deverá continuar fraca: os preços das moradias caíram cerca de 8% de seu pico, em termos reais (mensurada pelo índice Case-Shiller), e poderá cair bem mais, após ter dobrado entre 1997 e 2006; Ben Bernanke, o presidente do Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA), estimou em US$ 150 bilhões as baixas contábeis inesperadas resultantes da inadimplência dos devedores de financiamentos habitacionais, ou seja, mais do que a faixa de US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões que Bernanke estimara no início do segundo semestre, embora bem abaixo dos US$ 400 bilhões calculados por alguns observadores; e à medida que o capital dos bancos encolher, o mercado de crédito provavelmente continuará apertado.

Entretanto, por mais que esteja disposto a ajudar, o Fed está preocupado com pressões inflacionárias. As justificativas para essa preocupação são os preços recordistas do petróleo e a queda do dólar, agora mais desvalorizado em relação às importantes moedas mundiais do que em qualquer momento passado.

O que acontecerá agora depende de duas coisas: em que medida revelar-se-á fraca a demanda interna e em que grau sua queda será contrabalançada por um estímulo das exportações líquidas. Essa é "A Grande Reversão": a reimportação, pelos EUA, do estímulo que imprimiu ao restante do mundo entre 1996 e 2004, quando suas compras domésticas cresceram mais rápido do que o Produto Interno Bruto (PIB), e o déficit em conta corrente registrou crescimento explosivo.

Como é bem sabido, os EUA eram o principal absorvedor do superávit de poupança do resto do mundo, principalmente do Leste Asiático e dos países exportadores de petróleo. Um pouco menos compreendido é como isso funcionou internamente. No início da década de 2000, o principal absorvedor doméstico dessa enxurrada de crédito externo foi o governo americano. A partir de então, o principal absorvedor de crédito extrangeiro foi o setor privado, que incorreu em um déficit financeiro (excesso de gastos em relação à renda) que atingiu um pico de 3,4% do PIB no terceiro trimestre de 2006.

Esse déficit foi inteiramente assumido pelas famílias, chegando a 3,8% do PIB no segundo trimestre de 2006. Um déficit de tal magnitude só pode ser financiado mediante empréstimos. No caso das famílias, esses empréstimos traduziram-se em endividamento cada vez maior, principalmente bancado pelo crescente valor das moradias. Isso, agora, acabou.

 O resto do mundo deverá se ajustar, seja mediante aumento de sua demanda em relação à oferta, ou reduzindo sua oferta, em relação à demanda 

Mas a grande reversão ainda está moderada: as famílias americanas ainda registravam um déficit financeiro de 2,3% do PIB no segundo trimestre de 2007. Além disso, a taxa de poupança das famílias continuam muito baixas, em 2,5% do PIB no segundo trimestre de 2007. São prováveis correções adicionais no déficit financeiro e na taxa de poupança.

Assim, o que poderia contrabalançar tal desaquecimento nos gastos das famílias? Normalmente, as empresas não investem mais quando a economia está desaquecida, mesmo que sua posição financeira seja saudável. É provável um déficit financeiro governamental maior, como resultado do desaquecimento da economia. Mas uma injeção fiscal agressiva é improvável. Assim, o que sobra são as exportações líquidas.

Como ressaltam Wynne Godley, da Universidade Cambridge, e seus co-autores, uma melhoria sustentada no volume líquido de comércio americano compensará pelo menos uma parte do provável declínio na demanda interna (Wynne Godley and others, The US Economy: Is There a Way Out of the Woods? November 2007, www.levy.org). É por isso que as autoridades americanas, embora declarem-se interessadas em um dólar forte, não estão dizendo o que pensam. Querem, de fato, um dólar recuando, mas não a ponto de o recuo transformar-se em desmoralização.

As exportações líquidas já contribuíram com 25% do crescimento americano entre os primeiros três trimestres de 2006 e os primeiros três trimestres de 2007. Sem elas, o crescimento teria sido de apenas 1,5%, em lugar de 2%. Mas as exportações são apenas cerca de 12% do PIB. Elas precisam crescer consideravelmente mais do que 10% ao ano, em termos reais, para que a contribuição das trocas comerciais líquidas para a taxa de crescimento chegue a ser de 1 ponto percentual. Provavelmente será muito menor.

Uma visão plausível do futuro, portanto, sugere que os EUA viverão um prolongado período de crescimento lento da demanda privada interna, parcialmente contrabalançado por expansão fiscal e uma melhoria nas exportações líquidas. Além disso, é através do efeito dessas exportações que a política monetária deverá produzir seu principal impacto, pois é improvável que as famílias tomem muito mais dinheiro emprestado enquanto suas moradias vão perdendo valor.

Essa é a grande reversão. E o que significa para o restante do mundo? Significa que o resto do mundo deverá ajustar-se, seja mediante um aumento de sua demanda, em relação à oferta potencial, ou reduzindo sua oferta, em relação à demanda. O primeiro desses ajustes alternativos é, indiscutivelmente, o mais desejável.

Irá, esse cenário, concretizar-se? A boa notícia é que o acúmulo de reservas em moeda estrangeira e o concomitante desejo de coibir uma valorização da moeda - mantendo os juros baixos -, são, em si mesmos, expansionistas. O "superaquecimento" resultante faz parte da solução, e não do problema. Se esse superaquecimento ficar suficientemente ruim, os governos poderão permitir valorizações ainda mais rápidas de suas moedas: talvez até mesmo os chineses irão, finalmente, dar-se conta do erro de suas práticas cambiais intervencionistas.

A grande reversão é um ponto de inflexão para a economia mundial. O resto do mundo - e os mercados emergentes em particular - precisa agora converter-se nos motores da demanda na economia mundial. Mas, fará isso? Essa é a grande incógnita macroeconômica a ser desvendada ao longo dos próximos anos.

 

Bom senso estratégico Volta

O valor Econômico
Carlos Lessa
21/11/2007

Um fantasma acompanha a macroeconomia brasileira: uma sucessão de "apagões", alguns muito visíveis, outros anônimos. Quando a imprensa noticia que cirurgiões utilizam antiquadas brocas mecânicas para operações cranianas porque falta material cirúrgico de qualidade; quando a rede de saúde do Nordeste beira a inanição; quando jovens brasileiros concluintes do ensino fundamental, em uma análise comparativa com outros jovens de trinta países, ocupam o 31º lugar em aproveitamento didático; quando nas universidades são freqüentes misérias como goteiras, progressão de cupins e atrasos em pagamentos de energia elétrica; quando um mal desempenho se sucede a outro é possível afirmar um "apagão" das políticas sociais públicas. A brutal mortandade em acidentes de trânsito e a elevação dos fretes devido à degradação das rodovias evidenciam um "apagão" nas políticas de transporte. O aumento progressivo do tempo de deslocamento residência-trabalho-residência nas grandes cidades brasileiras é a expressão de um "apagão" nos investimentos de infra-estrutura urbana.

São muitos estes "apagões" derivados da prioridade absoluta à conta dos juros de Dívida Pública e ao alto nível da taxa determinada pelo Banco Central e multiplicada pelo sistema bancário existente no país. Ocioso recordar que, em uma economia com medíocre desempenho e inclinada para a estagnação, dinâmico é o lucro crescente dos bancos e de seu mercado de "capitais-satélites". Um cenário de múltiplos "apagões" vai obrigando o povo brasileiro a enfrentar novas carências. Em determinados capítulos, o "apagão" ganha espetaculosidade. A crise no sistema aeroviário é um "apagão" marcado por traços dramáticos e documentado abundantemente pela mídia. É espetacular ver a ante-sala dos suntuosos prédios de aeroportos improvisada em dormitórios.

O governo de FHC reinaugurou, de forma turbulenta, o "apagão" de energia elétrica. Preocupado com a privatização, desarticulando os sistemas de planejamento e financiamento do setor elétrico, FHC reeditou a década de 50, quando o sambista carioca dizia: "Rio, cidade que me seduz: de dia falta água e de noite falta luz". De forma improvisada e submisso às orientações do FMI e do Consenso de Washington, transferiu para o governo Lula o trauma do "apagão" energético e da solução improvisada da termo-eletricidade, consumindo gás e petróleo. No acordo com a Bolívia, o Brasil se comprometeu a comprar diariamente um volume de gás. Não havendo consumo termo-elétrico, foi estimulada a utilização industrial, o uso veicular etc a um preço sedutor para absorver a sobra de gás boliviano. Há alguns anos ficou claro que iria faltar gás. Na ocasião, foi afirmado que o campo de petróleo da Bacia de Santos reforçaria o gás. A economia brasileira cresceu alguma coisa nestes últimos dois anos. Surgiu o que era previsível: a ameaça de um "apagão" energético e a falta visível de gás.

 É altamente inquietante definir a Petrobras como "uma das petroleiras mundiais", em vez de uma empresa estratégica para o futuro brasileiro 

Há poucos dias, foi anunciado que o Brasil "irá integrar a Opep e se converterá em um grande produtor de petróleo", a partir das reservas estudadas pela Petrobras na Bacia de Santos. O preço do petróleo vem disparando - apesar da Petrobras e do governo terem, em 2003, garantido que o preço do barril ficaria estabilizado entre US$ 40, e US$ 50. Acima de US$ 100, serão utilizadas areias betuminosas, petróleos ultra-pesados e campos submarinos ultra-profundos. Certamente a Petrobras e as universidades brasileiras desenvolverão a tecnologia para extrair o óleo a mais de 5 quilômetros da superfície e enfrentando grandes depósitos de sal fóssil. O custo do barril, nessas condições, será extremamente elevado. Entretanto, o óleo a ser extraído de Santos em um futuro não programável não resolverá o "apagão" energético do governo Lula, porém faz uma cortina de entusiasmo a abafar o mal-estar de um "apagão" que reflete o baixo investimento público, procrastinado pela prioridade dos juros - a despesa favorita dos governos FHC e Lula.

Acompanhou o festival ligado à nova condição de "um Brasil potência petroleira" o anúncio de uma mudança nas regras de concessão, a companhias privadas, de lotes potencialmente produtivos. Espero que haja uma recuperação de bom senso estratégico no Brasil.

É altamente inquietante definir a Petrobras como "uma das petroleiras mundiais", em vez de uma empresa estratégica para o futuro brasileiro. Uma derivada dessa banalização foi a venda, para o exterior, de uma grande fração do capital da companhia e seu estímulo a reproduzir os procedimentos de suas congêneres, praticando a geopolítica assustadora da indústria de petróleo. No governo FHC tentou-se, inclusive, apagar o nome da Petrobras, se não me engano, por um ridículo "Petrobrax".

É uma péssima política energética o Brasil exportar petróleo. Seria admissível, no máximo, a troca de algum óleo pesado brasileiro por petróleo leve do exterior. Entretanto, nos lotes privatizados, o Brasil garante a comercialização do óleo produzido, ou seja, admite sua exportação. A Indonésia fez o mesmo e, como membro da Opep, vendeu seu petróleo a US$ 3 o barril, e hoje, com seus campos esgotados, importa petróleo a quase US$100 o barril. É fácil projetar que, com a estagnação dos últimos 25 anos, o Brasil terá algum petróleo para exportar. Entretanto, em nível mundial, a tendência de alta do óleo é firme. Campos de petróleo reconhecidos e desenvolvidos para atender ao consumo nacional são estratégicos para o Brasil de amanhã. A China não explora todo o petróleo que vem localizando. Afinal, este é um tesouro em continuada valorização financeira. Espero que a Petrobras fique com todo o campo da Bacia de Santos, que faça um novo esforço tecnológico para disponibilizar este óleo. No futuro, talvez venha a ser uma ótima combinação óleo pesado com petróleo leve para construir um barril mais barato para o desenvolvimento da vida brasileira.

 

Imagem de pluralismo do Ipea sofre um golpe Volta

O Valor Econômico
21/11/2007

Coisas estranhas passaram a ocorrer no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Criado em 1964, durante a ditadura militar, ele passou de um papel de ponta na formulação dos planos nacionais de desenvolvimento dos militares para, já longe dos holofotes, tornar-se um centro de debates e idéias sobre políticas públicas. Abrigou economistas de diferentes tendências durante todo esse tempo, mas subitamente tornou-se intolerante com quem não é de esquerda - embora haja dúvidas sobre se o governo ao qual o Ipea serve também o seja - e tem pontos de vista ortodoxos. Péssimo indício.

Os motivos oficiais do desligamento de Fabio Giambiagi e Otávio Tourinho (funcionários do BNDES), Gervásio Rezende e Regis Bonelli (aposentados do Ipea) não se sustentam em pé, o que só reforça seu caráter político. Há opiniões para todos os gostos no órgão. O Ipea é vinculado ao Ministério Extraordinário de Planejamento Estratégico, comandado por Mangabeira Unger, que qualificou o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de "o mais corrupto da nossa história". Márcio Pochmann, novo presidente da instituição e ex-membro da equipe de Marta Suplicy na prefeitura de São Paulo, diz que é crítico da política oficial do governo, especialmente dos juros altos. Outra não é a atitude do novo diretor de estudos macroeconômicos , João Sicsú.

Com tantos críticos da política econômica instalados no órgão responsável por formulações para o futuro do país e no ministério que o comanda, é difícil saber por que algumas opiniões críticas são válidas e outras provocam caretas primeiro, desligamentos depois. Há então pluralismos e pluralismos, o que serve conveniências. Justificativas burocráticas para demissões deste tipo já foram definitivamente desmoralizadas pelas ditaduras de esquerda. Pochmann argumenta com convênios que terminam, no caso de Giambiagi e Tourinho, mas, assim como cessam, convênios também se renovam.

No caso de Rezende e Bonelli, a justificativa seria o fato de estarem aposentados, embora se desconfie que o que se tenta é aposentar idéias. Em entrevista ao Valor (19 de novembro), o presidente do Ipea diz que estão sob sua égide quase mil funcionários, para mais à frente mencionar que a instituição tem também quase 500 aposentados em seus quadros. É saudável discutir a necessidade ou não de mudar essa configuração, mas não, em nome da eficiência do serviço público, que o problema comece a ser atacado livrando-se justamente de aposentados que não comungam de todas ou parte das políticas do governo.

Se todo o governo Lula usa e abusa do preenchimento político de cargos, contribuindo para o rebaixamento da eficácia da máquina pública, não seria justo esperar ou exigir que Pochmann fizesse algo diferente. Ele trocou os titulares de cinco das seis diretorias, provavelmente com o pressuposto de que precisa de pessoas de sua confiança e que compartilhem suas idéias nos cargos principais. Dentro de certos limites, é uma prática aceitável e corriqueira. Desligar pesquisadores que são comprovadamente competentes, com muitos anos de bons serviços prestados, porque têm opiniões distintas é perseguição política.

Há ainda a cantilena de que o Ipea deve-se voltar ao longo prazo e ao social, o que serve de pretexto para muita coisa. Nada de errado com ela, se a isso não se acrescentar a proibição de opinar sobre o curto prazo. É o que acontecerá com os trabalho do Grupo de Análise Conjuntural, integrado por Giambiagi, cuja atividade "será de pesquisa (stricto sensu) e não de intervenção ou recomendação pública de políticas econômicas". O GAC só o fará "pelos canais formais quando for solicitado", diz diretriz da direção do Ipea. Provavelmente, com isso se quer dizer que o grupo de acompanhamento conjuntural não mais acompanhará a conjuntura.

As idéias de Márcio Pochmann, João Sicsú e Fabio Giambiagi convivem harmoniosamente nas páginas do Valor, do qual são colunistas, e para o qual contribuem com a diversidade de pontos de vista necessária para a formação de opiniões bem fundamentadas. Custeado com o dinheiro do cidadão, o Ipea, com muito mais razão, deveria manter essa tradição saudável, construída há um bom tempo.

 

Café atrai apaixonados Volta
O Valor Econômico
The Economist
21/11/2007

Perto da ocupada máquina de café espresso no Ritual Coffee Roasters, um café em San Francisco, há uma caixa de aço inoxidável do tamanho de um computador de mesa. Essa caixa, a Clover (trevo em inglês), produz uma xícara de café num espetáculo de água que jorra, motores que zumbem e um engenhoso êmbolo invertido. Zander Nosler, o designer industrial que inventou a Clover há quase três anos, parece ter feito o impossível: atraiu seguidores apaixonados para uma nova máquina de preparar café que é mais lenta e muito mais cara que outras, além de exigir um operador treinado.

O café estimula inovações desde que foi extraído pela primeira vez com água, há séculos. O ponto alto foi atingindo com a invenção da máquina do espresso no início do século XX. Esse aparelho, feito para servir doses individuais e frescas a trabalhadores italianos, hoje domina os cafés no mundo todo.

Desde então, a maioria dos desenvolvimentos se concentrou na conveniência. O sistema Nespresso da Nestlé, por exemplo, usa cápsulas descartáveis, o que facilita o manuseio mas torna os usuários cativos do máquina, que só aceita as cápsulas da empresa. Mesmo assim, diz Nosler, "o lado hardware do negócio está lamentavelmente atrasado". Foi somente depois que Nosler modificou um protótipo automatizado para permitir que seu operador controlasse quase todos os aspectos da produção, é que a Clover chamou a atenção do varejo e de bebedores de café.

A Clover permite um grande controle ao operador, abrindo a possibilidade de trabalhar com grãos muito especiais, mas não é nada barata. Bruce Milletto, um consultor de varejo para a indústria do café, diz que um café americano típico gasta cerca de US$ 50 mil com equipamentos, sendo que cerca de 25% (ou US$ 12,5 mil) vai para uma máquina de café espresso. A Clover custa US$ 11 mil.

É um gasto que pode valer a pena. Eileen Hassi, dona da loja Ritual, diz que a Clover permite vender xícaras de café de grãos raros, com lucro. "Não há desperdício e o café é tão bom que as pessoas não reclamam de pagar US$ 6 dólares a xícara."

Esse tipo de entusiasmo explica porque 100 máquinas Clover foram vendidas em 2006, o primeiro ano de produção.

A companhia de Nosler, de capital fechado, emprega atualmente 11 pessoas em Seattle e triplicou as vendas este ano.

Nosler sinaliza que seu aparelho lustroso poderá estar em breve em redes de cafés muito maiores. Mas isso poderá ser um desafio: com sua capacidade de desenvolver todos os sabores de um café na xícara, a Colver pode produzir erros dolorosamente óbvios (dependendo do grão utilizado). Mas o segmento de grãos muito especiais costuma liderar o resto do mercado e a disseminação da Clover poderá ajudar a estimular a demanda por cafés melhores, facilitando mais mudanças na maneira como os grãos são produzidos e torrados. E aí está a esperança de Nosler pois é justamente esse o caminho que o café espresso vem seguindo.

 

Votorantim entra no negócio de zinco nos EUA e China Volta

O valor Econômico
Guilherme Manechini
21/11/2007

A Votorantim Metais (VM) anunciou ontem a aquisição da norte-americana U.S. Zinc por US$ 295 milhões. A compra marca o ingresso da empresa brasileira nos mercados de zinco dos Estados Unidos e da China, além de se consolidar como terceira maior produtora do metal no mundo.

Para 2008, a VM terá capacidade para produzir aproximadamente 600 mil toneladas de zinco, o que significará um acréscimo de 12% sobre a produção "pro-forma) deste ano - 540 mil toneladas. Esses volumes incluem produções de zinco metálico, óxido de zinco e pó de zinco.

Segundo o diretor-superintendente da VM, João Bosco Silva, a aquisição sinaliza ao mercado a estratégia da empresa de ser uma grande competidora na indústria global de metais. "Agora estamos presentes nos dois maiores mercados mundiais", resumiu. O executivo não descartou novas compras. "O conselho de administração nos orienta para termos operações competitivas em âmbito internacional", afirmou.

Antes de fechar negócio com a U.S. Zinc, subsidiária da Aleris International, a VM estava presente no Brasil e Peru em zinco, além de Colômbia (aço) e Bolívia. A companhia prevê encerrar 2007 com produção de 430 mil toneladas (sem o novo ativo nos EUA). A capacidade atual da U.S. Zinc é de 130 mil toneladas por ano, mas no início de 2008 subirá a 178 mil com a unidade chinesa. Localizada a 100 km de Xangai, em Changshu, entrará em operação no começo do ano.

A U.S. Zinc é grande fornecedora de zinco para as indústrias de cerâmica e pneus. Além da China, possui cinco unidades nos EUA e praticamente toda a produção é oriunda de reciclagem. "Não há necessidade de concentrado de minério", disse Bosco ao lembrar que faz parte da estratégia da VM reduzir a dependência de compras de matéria-prima de terceiros. "Queremos ter 70% de matéria-prima própria na nossa produção em três anos. Assim, provavelmente seremos o player mais competitivo do mercado", declara. Atualmente, o índice de integração da empresa é de 50%.

A U.S. Zinc também possui uma trading com dois escritórios nos EUA, o que permitirá o escoar parte da produção de zinco no Peru, localizada em Cajamarquilla, de 160 mil toneladas em 2008, para os EUA. "Até a aquisição, este volume era de 10% da produção de Cajamarquilla", relata Bosco. Cerca 40% do faturamento da VM - US$ 4 bilhões previsto para o próximo ano - virá do exterior.

 


A indústria terá outros 2007? Volta

 

O Valor Econômico
Denise Neumann
16/11/2007

CA indústria brasileira vem surpreendendo em 2007. Dois indicadores divulgados na última quarta-feira confirmam a trajetória de aumento crescente da produção. O comércio varejista vendeu, no terceiro trimestre, 9,3% mais que em igual período do ano passado, considerando dados de volume. Outro indicador também divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que o total de horas pagas na indústria foi 2,0% maior no período de julho a setembro deste ano também na comparação com igual período de 2006.

 

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Quando estes dois dados são cruzados com a produção da indústria no terceiro trimestre (alta de 6,4% em relação a igual período do ano passado) eles sugerem que a produção local, depois de apanhar dos bens importados, voltou a ocupar espaço no mercado doméstico e os empresários brasileiros continuam conquistando ganhos de produtividade.

 

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No primeiro trimestre de 2007, a indústria produziu 3,8% mais do que em 2006, enquanto as vendas do comércio foram 9,8% maiores, indicando um "gap" entre ambos de seis pontos. No trimestre seguinte, a indústria deu um pulo e elevou sua produção para um ritmo 5,8% maior, mas o desempenho do comércio manteve-se no mesmo ritmo. No terceiro trimestre, a diferença entre o ritmo de vendas no varejo e o da produção local caiu pela metade daquele observado no início do ano e ficou em 2,9 pontos. (ver tabela).

O volume de horas trabalhadas permite calcular (em confronto com a produção) se a indústria está mais ou menos produtiva. E nos dois últimos trimestres (segundo e terceiro deste ano) esse ritmo se intensificou. Depois do expressivo ganho de 2004 (6,1%), a produtividade andou a passou lentos em 2005 e 2006. Nos últimos meses de 2007, contudo, ela está crescendo a um ritmo de 4,3%. E esse ganho combina alta da produção com aumento simultâneo do emprego e do volume de horas pagas - melhor composição possível para este indicador.

A manutenção deste padrão positivo de produtividade está ancorado (e também é dependente) do aumento do investimento. No primeiro semestre, a formação bruta de capital fixo (FCBF), indicador que mede o consumo de máquinas e equipamentos e na construção civil cresceu 9% em relação ao ano passado.

Investimento, produtividade, maior consumo de bens de capital, etc. - este tem sido realmente um bom ano para indústria e afasta, temporariamente, as preocupações com desindustrialização, doença holandesa, precoce dependência do setor de serviços. O ponto que preocupa, no entanto, é o tempo. Teremos outros 2007 ou a tranqüilidade é temporária?

Desde o começo do ano, a indústria também aumentou suas importações. Uma balança comercial especial, calculada pela Secretaria do Desenvolvimento da Produção, do Ministério do Desenvolvimento, mostra que as importações feitas pelo setor industrial aumentaram 29% nos primeiros nove meses deste ano em relação a igual período do ano passado. Na mesma comparação, as exportações ainda crescem, mas em um ritmo bem menor: 13%. Em consequência, o saldo comercial da indústria apresenta, no período, uma queda de 40%. Em valores, o comércio externo do setor ficou US$ 6,4 bilhões menor (passou de US$ 15,7 bilhões em 2006 para US$ 9,3 bilhões este ano, sempre olhando para o período janeiro-setembro).

O aumento das importações, com certeza, é um dos componentes do ganho de produtividade da indústria este ano. E importar mais, enquanto princípio, não é um problema. Pelo contrário, é uma boa notícia. O problema é quando o aumento de importações é sucessivamente maior do que o das exportações. Quando isso acontece, o superávit comercial vira déficit. Esse tempo parece distante - mas já está horizonte.

 


 

Denise Neumann é editora de Brasil Volta

Doha faz seis anos e não há nada a comemorar

O Valor Econômico
16/11/2007

Há datas que dispensam comemorações e o sexto ano da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio, completos anteontem, é uma delas. Cumprido à risca seu cronograma, ela deveria ter se encerrado em 2005. Não foi e não será por mais um par de anos, em uma hipótese otimista. A própria reunião no Qatar, entre 9 e 14 de novembro de 2001, presidida por Mike Moore, diretor-geral da OMC, foi realizada sem que os 142 países que dela participaram tivessem concordado integralmente sobre os passos a serem dados. Os atentados de 11 de setembro nos EUA apressaram as iniciativas para que os países menos desenvolvidos tivessem melhores chances de progresso e, assim, maiores chances de assegurar regimes democráticos. Parte dessa urgência e desse espírito se perdeu ao longo do tempo.

As boas intenções tropeçaram no arraigado protecionismo da União Européia e dos Estados Unidos. Menos de dois anos depois de aberta, a Rodada Doha tropeçou feio em Cancún, no México, e jamais se levantou depois. A partir daí, seguiu-se impasse atrás de impasse, com propostas ruins que se sucediam a propostas péssimas. O objetivo principal das negociações, que era limpar o terreno agrícola da escandalosa proteção dada pelos países ricos à produção e exportação, não foi atingido, embora em seis anos as propostas, arrancadas sob intensa pressão do G-20, capitaneado pelo Brasil, tenham inegavelmente melhorado. Elas, entretanto, ainda estão a bom caminho de serem aceitáveis, ou justas.

Batizada de rodada do desenvolvimento, Doha pressupunha que os países ricos deveriam realizar a tarefa inacabada das negociações anteriores, da Rodada Uruguai, que consumiu oito anos e terminou com uma onda de liberalização tarifária das indústrias dos países em desenvolvimento, sem a correspondente contrapartida dos bens agrícolas por parte dos desenvolvidos. O pêndulo de Doha deveria se inclinar na direção de maiores concessões agrícolas, sem reciprocidades da mesma magnitude das nações em desenvolvimento em relação às áreas industrial e de serviços. Os interesses protecionistas falaram mais alto.

Quando a rodada estancou, no início do segundo semestre, os pontos principais sobre os quais gravitavam os impasses ainda se referiam à questão agrícola. Os EUA foram instados pelos coordenadores da OMC a reduzir seu subsídios para a faixa dos US$ 13 a US$ 17 bilhões. Queriam US$ 22 bilhões, usaram nos últimos dez anos a média de US$ 15 bilhões, e o G-20 insistia para que estacionassem em US$ 12 bilhões.

No caso da União Européia, que já anunciara em sua política agrícola comum que extinguiria os subsídios às exportações agrícolas em 2013, o eixo da discussão eram as barreiras de acesso a mercado e os subsídios internos à produção agrícola. A UE concordou em chegar aos 70% de redução tarifária, mas entrincheirou-se na defesa de uma lista de produtos sensíveis, que poderiam continuar fortemente protegidos, e em uma oferta insatisfatória de cotas, com as quais anularia as concessões feitas em incentivos à exportação.

UE e EUA, por seu lado, exigiram cortes de 57% a 62% nas tarifas industriais, enquanto que o Brasil aceitaria ir até os 50% e os aliados do G-20 divergiam consideravelmente a respeito. Para piorar as coisas, colocou-se um cavalo de Tróia para os países em desenvolvimento: a proteção especial a alguns produtos toda vez que as importações crescerem muito ou as cotações caírem.

Entre a reunião no Qatar e agora, muitas coisas mudaram - várias para pior. O bloco protecionista europeu ganhou mais estridência e relevo com a eleição do direitista Nicolas Sarkozy. A corrida contra o tempo em Doha para se chegar a um acordo antes que expirasse a autorização a George Bush para negociar acordos comerciais foi perdida. Bush não conseguirá renová-la, já que, na prática, no que depender do Congresso, perdeu a capacidade de governar. Os democratas estão com grandes chances de reconquistar a Casa Branca, e todos os candidatos mais cotados já deixaram claro que não gostam de acordos comerciais. O timing das negociações de Doha foi em grande parte ditado pelos prazos políticos americanos e agora não será diferente. 2008, ano das eleições presidenciais nos EUA, é um ano morto para Doha. O período de hibernação pode terminar, se terminar, só em 2009.

 



Emergentes cobram uma agenda dos EUA e advertem contra manobras  Volta

 

O Valor Econômico
Assis Moreira
De Genebra
16/11/2007

Uma aliança de 70 países em desenvolvimento, coordenada pelo Brasil, cobrou ontem dos Estados Unidos um "cronograma" urgente para mostrar se o país quer mesmo concluir a Rodada Doha na Organização Mundial do Comércio (OMC). Depois de presidir reunião dos grupos em desenvolvimento, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, destacou que os países enviaram aos EUA e a União Européia "a mensagem de que percebemos a manobra para tentar nos dividir" com uma suposta nova proposta na negociação industrial que beneficiaria alguns emergentes.

Os dirigentes dos grupos de países em desenvolvimento sublinharam a "união e solidariedade" em torno da agricultura como centro da Rodada Doha, e o engajamento por um acordo "leal" o mais rápido possível.

Amorim e Kamal Nath, ministro de comércio da Índia, advertiram que as incertezas sobre a extensão do TPA (a autorização do Congresso para a administração Bush negociar acordos comerciais sem emendá-los) aumentam os riscos sobre o futuro da negociação global e freia concessões por parte dos países.

A preocupação cresce, segundo Amorim, porque se começa a falar de julho próximo como novo prazo para acordo na OMC, depois de inúmeros prazos já superados. Ele estimou que o sentido de urgência está desaparecendo e julho pode ser muito tarde para o atual Congresso aprovar um pacote negociado pelos EUA e os outros 150 países.

Amorim reclamou que ao chegar em Genebra ouviu tanto rumor logo no aeroporto que teve vontade de pegar imediatamente o avião de volta ao Brasil. Ele aproveitou um "rumor" para alvejar americanos e europeus, sempre insistindo que não queria jogar a culpa em ninguém pelo impasse na negociação global.

Segundo o ministro, o "rumor" é de que Washington e Bruxelas estariam preparando um documento para a negociação industrial. E ele considerou essa atitude uma forma de esconder a falta de concessões na área agrícola e colocar toda ênfase na industrial. "Isso seria exclusivamente para colocar pressão sobre nós. O conluio é para desviar a atenção da negociação agrícola, porque eles (EUA e UE) encontraram uma zona de conforto mútuo sobre corte de subsídios e de tarifas. Mas essa manobra para dividir, para oferecer alguma coisa a certos países, é fútil, porque os países em desenvolvimento tem cada vez mais uma aliança estratégica", afirmou Amorim.

O Valor telefonou para o porta-voz de Peter Mandelson, o comissário europeu de comércio, para questioná-lo sobre a existência do documento, e ele repetiu a questão a seu chefe. Depois telefonou para dizer que não havia documento dos EUA e da UE, mas considerou que diferentes países ricos apresentavam sua "visão" diretamente ao mediador da negociação. Outra fonte em Genebra acrescentou que os países ricos estariam sugerindo idéias para "contrabalançar" a proposta feita pelo Mercosul de flexibilidade adicional para suas indústrias.

Amorim admitiu "nuances" entre alguns emergentes, e disse que falou aos ministros do México e do Chile que os dois países cometeram um "erro tático" ao se posicionarem com uma posição próxima a dos ricos na área industrial porque "isso aliviou a pressão sobre (os ricos) na agricultura".

Em Genebra, o ministro manifestou também frustração com a demora na reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas. E reiterou que o Brasil "tem muita influência nas relações internacionais", mas desmentiu que o país tenha candidato para dirigir a Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI), que perderá em breve seu diretor Kamil Idris, que irritou ao mesmo tempo americanos e europeus.

 


 

Lula e Cristina Kirchner debatem comércio sem dólar Volta

O Valor Econômico
De Genebra
16/11/2007

A futura presidente da Argentina, Cristina Kirchner, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vão examinar na segunda-feira, em Brasília, como implementar o sistema de pagamentos bilateral em moedas locais entre os dois países. Lançado há um ano como um primeiro passo para criação de uma moeda comum para o Mercosul, o projeto até agora não saiu do papel.

O sistema, para ser administrado pelos dois bancos centrais, deve facilitar as transações e reduzir os custos de operação entre os dois sócios do Mercosul, dispensando a conversão das moedas nacionais em dólar. A medida facilitaria, principalmente, o comércio de pequenas e médias empresas. O plano inicial era de o sistema funcionar desde julho deste ano.

Os argentinos insistem que as relações estão muito boas, mas também tem queixas. Uma delas é que perderam mercado no Brasil para países asiáticos, por causa de medida antidumping aplicada pelo país sobre a resina PET exportada pela Argentina. ''Os asiáticos ocuparam o espaço e estão exportando agora mais que a Argentina'', disse o subsecretário de Comércio Internacional, Nestor Stancanelli. "O Mercosul tem que preservar o comércio, não entendo como uma empresa desaloja os argentinos para entrar os asiáticos".

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, retrucou que essa situação mostra a importância de o bloco negociar regras comuns. Mas Alfredo Chiaradia, o secretário de Comércio Internacional argentino, reiterou que a perda de mercado dos argentinos é agora, enquanto a discussão sobre regras comuns ainda levará tempo até que chegue a uma união aduaneira completa. (AM)

 


 

Repasses eleitorais do PAC terão veto governista Volta

O Valor Econômico
Thiago Vitale Jayme, de Brasília
16/11/2007

A Transparência Brasil e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) compartilham a preocupação de DEM e PSDB com a Medida Provisória nº 387, aprovada pela Câmara na terça-feira. O texto proíbe o contingenciamento de recursos repassados ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Ao fazer isto, permite que durante as campanhas eleitorais o governo continue liberando verbas orçamentárias, contra o que determina a lei eleitoral. A oposição queria ver aprovada a inclusão de um artigo que vetava a liberação de verbas durante o período eleitoral, seguindo o que já está na legislação brasileira. O governo não permitiu a mudança e o texto foi à sanção do presidente Lula. Mas os líderes governistas no Senado, diante da revolta na Casa, prometeram veto presidencial à mudança feita na Câmara.

Imediatamente depois da aprovação do texto na Câmara, a oposição protestou no Senado. Quando os senadores analisaram a MP, o líder do governo naquela Casa, Romero Jucá (PMDB-RR), concordou com a exigência de tucanos e democratas e havia se comprometido a aceitar a vedação da vigência da MP em períodos eleitorais.

Na Câmara, o acordo foi quebrado. "Essa preocupação é bastante salutar. Mesmo por que é isso que determina a legislação eleitoral", diz o diretor-presidente da ONG Transparência Brasil, Cláudio Weber Abramo. "De modo geral, temos sempre de tomar cuidado com a tentativa do Executivo de usar o Orçamento como arma eleitoral", completa.

O presidente da OAB, Cezar Britto, concorda com Abramo. "A proibição do uso dos recursos públicos em campanhas eleitorais pretende favorecer a igualdade de concorrência", diz. "Independentemente de a MP liberar o uso dos recursos nas eleições, ela não pode afrontar a lei eleitoral. A proibição do uso da verba continuará proibido, independentemente da inclusão de qualquer proibição na medida provisória", completou.

Segundo Britto, a inclusão da emenda feita pela oposição apenas "pretenderia reforçar o que já está determinado na lei eleitoral".

Na quarta-feira, uma reunião de líderes no Senado tratou do assunto. A oposição protestou contra a quebra do acordo, pelos governistas da Câmara, feito com Jucá. E ameaçou com obstrução caso o presidente não vete o artigo que libera os recursos no período eleitoral. "Ou o presidente veta com clareza o quanto antes essa mudança na MP ou vai ter impacto grave na votação da Lei Orçamentária. Na CPMF, então, o governo vai ver o que é bom para a tosse", disse Arthur Virgílio (AM), líder do PSDB no Senado.

 


 

Wal-Mart leva marca gaúcha Nacional a Santa Catarina Volta

O Valor Econômico
Vanessa Jurgenfeld, de Florianópolis
16/11/2007

O grupo Wal-Mart dá o primeiro passo para levar a bandeira Nacional para fora do Rio Grande do Sul. O grupo já iniciou a construção e programa a abertura de uma primeira loja em Santa Catarina, em janeiro de 2008. Até agora, a rede de supermercados que leva este nome, com 33 anos de existência, estava somente em solo gaúcho, com 68 unidades em operação.

A expansão além dos limites do Rio Grande do Sul ocorrerá a partir de uma unidade no Floripa Shopping, empreendimento inaugurado há um ano no norte de Florianópolis. A família Demeterco, ex-dona da rede de supermercados Mercadorama, no Paraná, controla o shopping (com 89% de participação no capital), e foi a partir dela que se deram as tratativas com o Wal-Mart. Os Demeterco já possuíam um relacionamento com o grupo Wal-Mart, uma vez que depois da compra da Sonae no Brasil, o varejista passou a ser inquilino da família em 15 imóveis no Paraná.

Filipe Demeterco, representante dos acionistas do Floripa Shopping, diz que procurou o Wal-Mart para ocupar um espaço dentro do empreendimento. Não houve necessidade de procurar outras redes pois o plano de expansão do Wal-Mart incluía a instalação de um supermercado em Santa Catarina. Até agora, o grupo varejista operava no Estado apenas no atacado, com a bandeira Maxxi, e no varejo por meio dos hipermercados BIG, com unidades em cidades como Blumenau, Joinville, Florianópolis e em São José, na Grande Florianópolis. A estimativa de mercado é de um investimento em torno de R$ 10 milhões na nova unidade. Wal-Mart não divulgou valores.

"No momento em que detectamos que um supermercado seria importante para a nossa ancoragem, o grupo Wal-Mart foi o primeiro a ser procurado porque já eram parceiros", explica Filipe Demeterco.

Há um ano, quando o shopping contava com outros acionistas, entre eles o dono das joalherias Bergerson e Roberto Grazziano, um dos sócios da Cougar, não havia unanimidade quanto à instalação ou não de um supermercado dentro do centro comercial. As primeiras conversas com o grupo varejista se deram em julho deste ano e já há data para a inauguração do Nacional: dia 24 de janeiro. Há poucos dias, foi aberto o processo de seleção de 150 funcionários.

O Nacional, rede voltada a público de classes média e média-alta e que aposta na seção de hortifruti, é uma das marcas do Wal-Mart Brasil para a área de supermercados. Além dela, o grupo possui neste segmento a bandeira Bom Preço, com a qual atua no Nordeste. Dentro da Wal-Mart Brasil, a Nacional possui o maior número de lojas em um Estado brasileiro. Já há outras experiências do Nacional em shopping centers, caso do Iguatemi de Porto Alegre e o Shopping Praia de Belas, também em Porto Alegre.

Demeterco diz que o supermercado não chega com o intuito de "reanimar" o shopping porque, segundo ele, não há problemas com o fluxo de pessoas, hoje entre 300 mil e 350 mil por mês. "O supermercado vem para atender a necessidade dos clientes, que já manifestaram interesse neste tipo de loja, e poderá melhorar essa movimentação em 25%".

Segundo o executivo, o modelo de loja que está sendo construído pelo Wal-Mart no shopping pretende manter o tipo de público que o empreendimento atualmente atende: classes A e B. A unidade catarinense do Nacional será sofisticada, longe do modelo de hipermercado, cujo foco é de muitos produtos em ofertas. A área de venda total será de 1,7 mil metros quadrados.

O avanço do grupo Wal-Mart chama a atenção por representar mais uma fatia de mercado que será dividida. Em Santa Catarina, o Nacional vai concorrer com bandeiras locais, em um mercado que apresentou crescimento médio anual de 5% nos últimos quatro anos, segundo executivos do setor.

Zéfiro Giassi, presidente da rede Giassi, que prepara sua nona loja no Estado, em Blumenau, diz que a chegada de novas bandeiras é uma "ameaça natural, já dentro do previsto", e não quer dizer que irá inviabilizar os varejistas já existentes.

"As redes que saíram do nada devem ter conhecimento suficiente para conseguir lidar com essa situação. Não podemos contra-atacar gigantes, mas podemos fazer nosso papel, falando a mesma linguagem do cliente, conhecendo-o mais de perto", diz Giassi.

Para Julio Lohn, presidente em exercício da Associação Catarinense de Supermercados (Acats), não se pode menosprezar o movimento da maior empresa do mundo neste setor, ainda que o novo passo dado no Estado não se apresente tão agressivo, não tendo a empresa adquirido, por exemplo, uma rede já existente. "Esse movimento vai levar as regionais a buscar melhoras de eficiência".

 


 

Células-tronco, boa notícia Volta
Folha de São Paulo
21/11/2007
NUMA NOTÍCIA aguardada com anseio, cientistas desenvolveram uma nova técnica de produção de células-tronco capazes de converter-se em qualquer tipo de tecido humano. O fato poderá tornar obsoleto o debate ético em torno da destruição de embriões.
Dois grupos, um japonês e um americano, que atuavam de forma independente, anunciaram ter reprogramado células adultas para que adquirissem as propriedades de células-tronco embrionárias sem precisar cloná-las. Organizações antiaborto e a Casa Branca deram boas-vindas à nova técnica.

Por ora, os estudos funcionam mais como uma prova de princípio. Os cientistas demonstraram que, com a introdução de apenas quatro genes, é possível fazer células adultas "voltarem" a comportar-se como embrionárias.
Aplicações médicas ainda estão distantes. Tanto os vírus quanto os genes usados na reprogramação tornam as células produzidas mais suscetíveis a cânceres. Sem aprimorar a técnica, seria arriscado usar o material em terapias ou para produzir órgãos sobressalentes, promessa da clonagem terapêutica.

A descoberta tampouco é suficiente para abrir mão de pesquisas com células obtidas de embriões. Não se sabe se as duas variedades se comportam da mesma forma nem se os riscos da nova técnica podem ser reduzidos.

O certo é que se inaugura promissora linha de pesquisa. A inovação contorna o problema ético e, por não usar óvulos humanos, tende a facilitar a produção de células-tronco. Outro benefício da descoberta é que as pesquisas deverão receber mais dinheiro. O governo Bush não financiava experimentos que envolvessem destruição de embriões, o que a nova técnica dispensa.

 


 

A nova Finep Volta

Folha de São Paulo
ANTONIO DELFIM NETTO
21/11/2007

É CURIOSA a resistência de alguns "cientistas" sociais em reconhecer que, a despeito de pequenos desvios ideológicos, o governo Lula recuperou a idéia de que só um desenvolvimento mais harmônico pode resolver nossos problemas. Duas decisões aparentemente distintas mostram isso. A primeira foi colocar o aumento da igualdade de oportunidades como objetivo prioritário de longo prazo, o que é essencial para dar ao "mercado" aquele mínimo de moralidade que garante a continuidade da política econômica mais eficiente.

Quem tiver dúvida olhe para nossos vizinhos... Essa tarefa tem sido executada com perseverança e inteligência pelo ministro Patrus Ananias. Ele não apenas tem aperfeiçoado o foco das políticas de assistência social mas tem insistido sobre a necessidade de se fornecer aos assistidos a possibilidade de livrarem-se dela. A crítica de que tais programas são "políticos" é ridícula. Tudo é político, até a crítica!

A segunda questão tem menor visibilidade, mas é tão importante quanto a primeira. Recuperou-se a velha idéia de que o conhecimento e a inovação são a "causa de todas as causas" do desenvolvimento. A Finep (Financiadora de Estudos e Projetos S.A.) foi criada em 1967 e fortemente apoiada até o início dos anos 80 para, em coordenação com uma política industrial-exportadora, estimular a incorporação de tecnologias geradas no exterior e, principalmente, a criação de tecnologias inovadoras. A íntima cooperação entre a academia, a indústria privada e a do governo (Telebrás, Eletrobrás e Petrobras) foi importante fator de crescimento no passado. A agência foi enfraquecida por quase uma geração pelo regime de inanição que lhe impôs a miopia fazendária, que acreditava no "desenvolvimento espontâneo produzido pelo mercado", a mesma que depois submeteu os fundos setoriais a um "contingenciamento" absolutamente ilegal.

A ressurreição da Finep começou com a nomeação do senhor Sérgio Rezende para a sua presidência. Ele imediatamente reconheceu a importância da recuperação do objetivo original para o qual ela tinha sido criada. Justamente promovido a ministro da Ciência e Tecnologia, o senhor Sérgio Rezende nomeou para a Finep o senhor Luis Fernandes, um técnico conhecido e competente, com ampla experiência na área. Ele tem demonstrado ter uma visão clara do papel da agência na integração do processo de pesquisa e desenvolvimento com a política industrial-exportadora. O orçamento da Finep para 2008 fez renascer a esperança na consolidação da lei de inovações.

 


 

"PAC da Ciência" aumenta bolsas e facilita importação Volta

Programa lançado ontem prevê R$ 41 bi de investimentos no setor até 2010

Bolsas da Capes e do CNPq terão reajuste de 20% em 2008 e subirão de 95 mil para 155 mil em três anos, diz ministro Sergio Rezende

Folha de São Paulo
ANGELA PINHO
LETÍCIA SANDER
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
21/11/2007


O ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, assinou ontem um decreto para "simplificar" o processo de importação de insumos para pesquisa. Ele também anunciou um aumento do número e no valor das bolsas de mestrado e doutorado concedidas pelos órgãos de fomento do governo.

As medidas fazem parte do "PAC da Ciência", anunciado ontem no Palácio do Planalto para autoridades e membros da comunidade científica.

As bolsas da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e do CNPq serão reajustadas em 20% a partir do dia 1º de março de 2008. A de mestrado passará de R$ 940 para R$ 1.200 e a de doutorado, de R$ 1.340 para R$ 1.800. O número de bolsas sobe de 95 mil para 155 mil em 2010.

A simplificação do processo de importação de insumos para pesquisa -anúncio mais aplaudido pela platéia- significará, de acordo com o ministro, que a Receita terá uma "linha verde" para esse tipo de produto, reduzindo a demora em trazê-los.
"Os fiscais da alfândega vão dar um tratamento diferenciado para produtos para pesquisa", disse Rezende. Será criada ainda uma guia de importação diferenciada para os insumos e equipamentos científicos.

Entre as medidas previstas no plano estão também a concessão de uma bolsa, paga pelo CNPq, para que pesquisadores trabalhem em projetos apresentados por empresas.

Outra medida para tentar estimular a inovação será a criação de fundos de capital de risco com participação do BNDES e da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), que comprarão participações acionárias em empresas com base tecnológica. De acordo com o ministro, a Finep colocará, neste ano, R$ 80 milhões nesses fundos.
Embora tenha dito à Folha no mês passado que o BNDES investiria R$ 2,7 bilhões, ontem ele afirmou que, naquele momento, não se lembrava qual seria a cifra do banco.

Áreas estratégicas
O "PAC da Ciência" prevê um investimento de R$ 41 bilhões até 2010 em formação de pesquisadores, inovação tecnológica na iniciativa privada e desenvolvimento de "áreas estratégicas" -são 13, abrangendo desde energia nuclear até preservação do ambiente.

A maior parte dos recursos virá do FNDCT, fundo que tem hoje cerca de R$ 5 bilhões contingenciados para engordar o superávit primário. O ministro promete que o contingenciamento vai chegar a zero em 2010, último ano de Lula.

A partir daí, quando outro governo assume, Rezende diz apostar no aumento dos recursos do fundo com o incremento das receitas do petróleo, que compõem um dos fundos setoriais que financiam o FNDCT.

No discurso de lançamento do programa, Lula disse que o governo está fazendo uma "reparação" pelo que não foi feito nos últimos anos. Pediu "vigilância" da área científica para cobrar do governo que as metas sejam cumpridas.

Lula disse que aprendeu na prática as dificuldades entre anunciar e aplicar um programa. "Na teoria, durante a campanha, tudo é fácil. Mas quando você senta na cadeira e você determina, dá a ordem e seis meses depois vê que então aconteceu é que você percebe que o governo é definitivamente muito passageiro e que a máquina é quase como se fosse eterna", afirmou.

Ao lado de Lula, o presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), Marco Antonio Raupp, elogiou o plano, mas falou da "decepção" pelos sucessivos cortes de recursos para a área. "Vamos cobrar o cumprimento das metas", declarou depois.


 

Técnica gera célula-tronco sem embrião Volta

Folha de São Paulo
GIOVANA GIRARDI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
21/11/2007

Grupos no Japão e nos EUA reprogramaram células adultas da pele humana para agirem como se fossem embrionárias.
Estratégia desenvolvida por japonês pode eliminar o dilema ético em torno da clonagem terapêutica, que demanda destruir embriões.
Duas equipes independentes de cientistas deram um salto nas pesquisas com célula-tronco ao conseguirem fazer com que células humanas adultas da pele "voltassem no tempo" e passassem a agir como se fossem as versáteis células-tronco embrionárias, conseguindo posteriormente se diferenciar em outros tecidos do corpo.

A técnica surge com a promessa de que talvez, no futuro, possa substituir o uso das polêmicas células-tronco embrionárias. As CTEs são hoje as queridinhas dos pesquisadores por conta de seu potencial terapêutico. Como elas têm a capacidade de se transformar em qualquer outro tecido do organismo, podem, em tese, ser usadas para o tratamento de doenças degenerativas, como diabetes e mal de Parkinson.

O problema é que, para obtê-las, é necessário destruir embriões, fato que enfrenta a resistência de grupos religiosos. Com o novo trabalho, a Casa Branca parabenizou os cientistas por resolverem problemas médicos "sem comprometer os elevados objetivos da ciência e o sagrada da vida humana".

Cientistas do Japão e dos EUA pegaram células da pele humana (fibroblastos) e induziram nelas a tão desejada pluripotência (versatilidade) da CTEs. Após essa reprogramação, elas não só assumiram uma aparência de CTEs como também um funcionamento semelhante ao delas, chegando a se diferenciar em neurônios e células cardíacas.

"Estamos agora em posição de gerar células-tronco específicas para pacientes e doenças sem usar embriões", declarou Shinya Yamanaka, autor de um dos estudos, em comunicado. "Com essas células, poderemos compreender mecanismos de doenças, procurar por drogas eficientes e seguras e tratar pacientes com terapia celular."

O feito tinha sido obtido pela primeira vez em meados de 2006, com células de camundongo, pela equipe de Yamanaka, da Universidade de Kyoto. Desde então, cientistas de todo o mundo vinham tentando replicá-lo em humanos. Agora, os grupos do japonês e do americano James Thomson, da Universidade de Wisconsin em Madison, conseguiram. Os trabalhos foram publicados on-line nos periódicos "Cell" (www.cell.com) e "Science" (www.sciencexpress.org).

Regulação
As duas equipes trabalharam com a introdução nos fibroblastos de quatro genes ligados à manutenção da capacidade das células-tronco embrionárias. Quando um organismo está se formando, esses genes estão ativos nas CTEs e fazem com que elas se diferenciem nas demais células do corpo. No momento em que a célula atinge sua especialização, no entanto, eles são desativados.
O pesquisadores usaram retrovírus, parentes do vírus da Aids, para introduzir esses genes nos fibroblastos de modo que eles se reativassem e as células retomassem a versatilidade (veja quadro à direita). A diferença entre os dois estudos foram os genes usados. O grupo de Yamanaka trabalhou com Oct3/4, Sox2, Klf4 e c-Myc. O de Thomson trocou os últimos dois por Nanog e Lin28.

Fim da clonagem?

O achado pode jogar uma pá de cal nas busca da chamada clonagem terapêutica. Ainda na semana passada, um dos pioneiros dos estudos com clones, o escocês Ian Wilmut, "pai" da ovelha Dolly, se antecipou ao lançamento dos trabalhos ao dizer que desistia de tentar clonar um ser humano para obter células-tronco.

Ele disse na ocasião que sua decisão era baseada no sucesso que Yamanaka tivera anteriormente com camundongos. Ontem ele só complementou sua decisão: "Nós podemos agora visualizar um tempo em que uma simples técnica poderá ser usada para produzir células-tronco que serão capazes de formar qualquer tecido a partir de uma pequena amostra de qualquer um de nós."
Robert Lanza, da companhia Advanced Cell Technology, que vinha tentando clonar embriões, comparou: "Este trabalho representa um tremendo marco científico, o equivalente biológico do primeiro avião dos irmãos Wright", disse. "É um pouco como aprender como transformar chumbo em ouro."

Em entrevista coletiva, ontem, a equipe de Thomson também se manifestou nesse sentido. Quando questionada sobre se ainda fazia sentido falar em clonagem terapêutica, Jennifer Frane, também de Wisconsin, respondeu: "Bem, eu diria que não". Ao que foi amparada por Thomson: "A transferência de núcleo celular é um bom experimento, mas nós ainda somos ineficientes, ele é caro, é difícil de fazer e é provável que nunca aproveitemos as aplicações. Então não imagino que ele dure por muito tempo".

Mas, apesar de a nova técnica ser "eticamente descomplicada", como definiu Douglas Melton, co-diretor do Instituto de Células-Tronco da Universidade Harvard, ela ainda não deve substituir os estudos com as células-tronco embrionárias.

"Ainda temos muito a aprender com as células-tronco embrionárias. E só pesquisando seu funcionamento podemos fazer com que uma célula adulta imite seu comportamento", ressaltou a pesquisadora Lygia da Veiga Pereira, da USP. "Veja que os próprios autores só chegaram a esses resultados graças às CTEs e precisarão delas para várias outras análises, inclusive para eliminar o vírus como tecnologia para a reprogramação, o que impede que isso seja usado para a terapia com seres humanos", complementou Stevens Rehen, da UFRJ.

 


 

É cedo para enterrar a clonagem Volta

Folha de São Paulo
MARCELO LEITE
COLUNISTA DA FOLHA
21/11/2007

"Clonagem terapêutica." Nome pomposo, para uma tecnologia que nunca chegou a se materializar. E que agora, com os trabalhos de Shinya Yamanaka e de James Thomson, pode se tornar obsoleta antes mesmo de provar-se.

A "terapia", no caso, era retórica -uma promessa. Pressupunha que a linha de pesquisa inaugurada com a fabricação da ovelha Dolly redundaria, com certeza, em terapias celulares para moléstias como Parkinson e diabetes.

Com tanto debate ético, a técnica até parecia estar à mão. Engano: as células-tronco embrionárias (CTEs) só haviam sido obtidas com clones de camundongos (terapia, mesmo, nem com eles).

É cedo para entusiasmar-se com as células pluripotentes induzidas (CPIs) de Yamanaka e Thomson. Ou dar a clonagem terapêutica por natimorta, como parece inclinado a fazer Ian Wilmut (um dos "pais" de Dolly).
Primeiro, porque as técnicas de Yamanaka e Thomson ainda precisam ser aperfeiçoadas. A taxa de sucesso é baixa, uma célula a cada 5.000 ou 10.000 manipuladas.

Além disso, as CPIs envolvem dois componentes de risco: o uso de retrovírus a fim de contrabandear quatro genes para dentro das células e algum potencial cancerígeno (um espectro sempre presente quando se trata de células-tronco).
Para se tornar segura, a técnica terá de livrar-se dos retrovírus, pois não faz sentido tratar alguém com células infectadas. Será preciso encontrar uma maneira de reativar os mesmos genes, que estão presentes -mas adormecidos- nas células que se quer transformar, dispensando o acréscimo de cópias extras. Não é trivial.

Se comemorarem esse sucesso tão relativo obtido com células adultas, os inimigos da pesquisa com embriões estarão mais uma vez sendo parciais. Os estudos de Yamanaka e Thomson lhes dão alguma razão, ao mostrar que há alternativas viáveis à destruição de embriões para pesquisar terapias celulares. Se mais viáveis, ou menos, o tempo dirá.

Até lá, será preciso decidir se há razão para bloquear uma avenida quando não há certeza de que a outra será construída. No Brasil, porém, as CPIs podem ser um alento, uma vez que a "clonagem terapêutica", proibida pela Lei de Biossegurança, de 2005, está fora de questão.

Nem mesmo o estudo com uns poucos embriões armazenados em clínicas de fertilização está garantido, apesar de permitido pela lei. Ainda falta o Supremo Tribunal Federal decidir se o dispositivo é constitucional -ou não, como alega a Procuradoria Geral da República, com apoio de grupos religiosos e conservadores.

O Supremo promete começar a julgar o caso em dezembro. Quando o fizer, correrá o risco de pronunciar-se sobre pouco mais que ensaios preparatórios para uma biotecnologia em franca marcha para a irrelevância.

 


 

Sem ferrovias, rodovias, hidrovias e portos Volta

O Estado de São Paulo
Sandra Cavalcanti
21/11/2007

Este é o Brasil de Lula, hoje. Mas tem mais: sem garantia de energia! Já entramos na crise de fornecimento de gás natural. Os preços vão disparar. O fantasma da inflação volta e, daqui a pouco, a crise atinge o abastecimento geral. Mais adiante, na crise de escoamento de safras e de produção industrial, começa outro ciclo de dificuldades. Por que tudo isso?

Muito simples. A estradas estão em petição de miséria. As ferrovias praticamente não existem. Os portos continuam reféns das Docas politizadas. E as aerovias, pior ainda, submetidas à politicagem do aparelhamento petista.

Lula se queixa sempre de uma herança maldita. Sempre se refere a ela quando compara o seu governo com o anterior. No entanto, na realidade, todo o seu proclamado êxito se deve, exatamente, ao cumprimento de todo o planejamento econômico herdado de Fernando Henrique Cardoso. A herança maldita é outra: Lula manteve todos os fracassos de Fernando Henrique nas áreas de transportes e de energia.

Infelizmente, os tucanos, que foram um sucesso na área das comunicações, foram um desastre na área de rodovias, aerovias, portos, ferrovias e energia. Essa, sim, foi uma herança maldita. O governo dos tucanos, que no primeiro mandato de Fernando Henrique teve a coragem de privatizar o sistema de telefonia, não teve o mesmo desempenho nas outras áreas. A duras penas, muito constrangidos, “permitiram” que Angra-2 fosse terminada... Mas não tiveram peito para aproveitar o que já estava pronto e acabar Angra-3. A situação do Sudeste, hoje, seria bem outra, se essa usina já estivesse operando. Os prejuízos e inseguranças seriam bem menores. Mas a turma da USP não gosta da idéia...

Quanto às rodovias, o desastre foi completo. Entregar ao PMDB a questão das rodovias foi o mesmo que colocar a raposa para cuidar do galinheiro. Morre-se hoje nas estradas federais mais do que na guerra do Iraque!

Ouvimos falar em melhorar as condições das estradas federais em Minas Gerais. Mas hoje quem é que se aventura a utilizá-las? Estão um horror. A Operação Tapa-Buracos foi um desacato aos cidadãos brasileiros. Merecia cadeia, se este país fosse sério! E o trecho da Régis Bittencourt (BR-116) entre São Paulo e Curitiba? Alguém conhece vergonha maior? Isso sem falar nas estradas do Centro-Oeste e nas da Região Amazônica. Por que não privatizá-las? Por que elas não podem ficar civilizadas como as do Estado de São Paulo ou como as do Estado do Rio de Janeiro?

Verbas públicas. Licitações desonestas. Emendas demagógicas nos orçamentos. Material ordinário. Desvios de recursos. Caixa 2 para campanhas políticas. Esta é a questão fundamental: as estradas são os maiores ralos de nossos orçamentos! Lula não mudou nada. Só trocou os personagens.

E as ferrovias? Como pode um país continental como o nosso prescindir de transporte ferroviário? E os portos? Como pode um país com o litoral e com a malha fluvial de que dispomos abrir mão de transporte marítimo? Também sob este ponto de vista, a herança de Fernando Henrique Cardoso foi negativa. Mas Lula a manteve. O País continua carregando seus produtos em carretas, que cada dia mais se encarregam de estragar o piso das pobres rodovias e trazer perigo para os seus usuários...

As Docas, nos portos, continuam sendo massa de manobra política. Já eram e continuam sendo. São um viveiro de cargos para os companheiros dos sindicatos e das legendas da famosa base partidária. Por isso os custos dos nossos produtos de exportação não baixam e a competitividade sofre.

Quanto ao transporte aeroviário, o descalabro vem de longe. FHC manteve-o e Lula continuou. A Infraero é um modelo exemplar do que não deve ser feito. Reduto de cargos para militares em fim de carreira e base para políticos espertos fazerem grandes negócios.

As agências reguladoras, que poderiam ter sido um instrumento de progresso, no governo Lula foram esvaziadas. Elas não combinam com a mentalidade estatal, centralizadora, que está na base da atuação petista. Ao contrário, todas elas estão sendo devidamente desmoralizadas, num movimento sutil e eficiente, orientado pelo grupo mais ideológico do Planalto.

Se o País crescer, vai ser um problema danado! Não teremos energia elétrica para garantir a expansão de nosso parque industrial. E se, apesar disso, ele se expandir, não teremos estradas para lhe dar escoamento. Se a agricultura aumentar a sua capacidade, não teremos como armazenar a produção. Nem como escoá-la pelos portos, se as Docas continuarem como estão. E se as ferrovias não tiverem condições de operar, vai ser difícil transportar o excelente resultado de nossa agroindústria.

Ou seja, como gosta de dizer o presidente Lula, é óbvio que estaremos obstruídos dentro de nosso território, graças à total incompetência administrativa dos atuais dirigentes. Estaremos paralisados, entalados, atolados e travados. Quando faltar energia, Angra não estará pronta. E ela é a mais rápida de todas as soluções... Quando faltarem estradas de ferro, as safras vão ser sacrificadas. Quando as estradas estiverem sob as chuvas, ninguém andará nelas... E quando os portos ficarem totalmente entupidos, ninguém vai exportar ou importar...

Essa, sim, é uma herança maldita. Que começou com o ditador Getúlio Vargas e continua até hoje. Aquele anúncio engraçado que diz “o mundo gira e a Lusitana roda” pode ser lido agora de outra maneira: o mundo cresce o lulismo trava!

Sandra Cavalcanti, professora, jornalista, foi deputada federal constituinte, secretária de Serviços Sociais no governo Carlos Lacerda, fundou e presidiu o BNH no governo Castelo Branco.

 


 

Um novo padrão monetário mundial? Volta

O Estado de São Paulo
21/11/2007
A moeda norte-americana está no banco dos réus. Ontem a moeda européia atingiu um recorde de US$ 1,4815, enquanto a onça troy de ouro foi cotada em US$ 793,41. Diante desse quadro, crescem as sugestões para que a moeda norte-americana deixe de ser o padrão monetário internacional.

É evidente que o enfraquecimento do dólar tem certa influência na alta do preço do petróleo e das commodities. Vendo que nos últimos cinco anos o dólar perdeu 22,5% do seu valor, os produtores de petróleo e de commodities, cujas demandas estão crescendo, sem que se tenha a certeza de que poderão ser atendidas, forçam o aumento dos preços desses bens, o que pressiona a inflação no plano mundial.

Esse movimento dos preços tem influência direta sobre as receitas de exportação de alguns países - a grande maioria países emergentes - cujas reservas internacionais estão crescendo, mas ao mesmo tempo representam um ativo que perde parte do seu valor. Até agora, os países detentores de grandes reservas estavam, na maioria dos casos, aplicando esses recursos em títulos do Tesouro norte-americano. Diante do duplo déficit fiscal e comercial dos EUA, ao qual se somam as dificuldades criadas pela crise dos empréstimos hipotecários, esses papéis estão oferecendo uma remuneração cada vez menor para uma moeda que perde substância.

O caso mais dramático é, certamente, o da China, com reservas internacionais de US$ 1,43 trilhão. No caso do Brasil, com reservas mais modestas, de US$ 174 bilhões, o problema também existe, pois essas reservas estão perdendo cada vez mais seu caráter de seguro.

A situação está chegando a tal ponto que é cada vez maior a tendência de abandonar o dólar como moeda-padrão internacional, lembrando-se, aliás, que no passado essa função era exercida pela libra inglesa e pelo franco francês.

Os países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) estão iniciando conversação sobre o interesse que teriam em mudar a moeda de cotação do petróleo, embora a Arábia Saudita seja muito vinculada aos EUA. A China também não esconde seu desejo de procurar uma moeda mais estável para suas reservas, o que mereceria toda atenção do nosso Banco Central.

Essa mudança teria efeitos importantes sobre a economia norte-americana, que até agora consegue financiar, sem sacrifícios, seu duplo déficit. O mundo precisa analisar em profundidade essa possível evolução.


 

Brasil e Alemanha querem fortalecer cooperação tecnológica Volta

Mídia eletrônica: DW - World
http://www.dw-world.de
19/11/2007

Encontro econômico em Blumenau discute inovação e cooperação tecnológica. Comércio bilateral tem forte expansão em 2007 e empresariado alemão prevê novo recorde de investimentos diretos no Brasil.

"Inovação e cooperação tecnológica" é o tema do 25º Encontro Econômico Brasil-Alemanha, que reúne cerca de 1.400 empresários e políticos dos dois países até terça-feira (20/11) em Blumenau, um dos principais centros da colonização alemã no Brasil.

O encontro, que já virou rotina nas relações bilaterais, acontece num momento em que os europeus, depois de anos fixados na China, redescobrem o Brasil como destino para seus investimentos.

De acordo com o Departamento de Estatísticas da União Européia, no ano passado, empresas da UE investiram 5,3 bilhões de euros na maior economia da América do Sul – bem mais do que na Rússia (€ 4,3 bilhões), na China (€ 3,7 bilhões) ou na Índia (€1,6 bilhões).

A Espanha foi líder de investimentos europeus no Brasil em 2006, mas a Alemanha mantém uma presença forte há décadas. Segundo dados da embaixada alemã em Brasília, as 1.200 empresas com capital alemão instaladas no país representam investimentos diretos de mais de 20 bilhões de dólares.

Novo recorde

A Federação das Indústrias Alemãs (BDI), que levou 250 empresários a Blumenau, avalia positivamente o atual quadro econômico brasileiro e prevê que o país deverá bater este ano um novo recorde de investimentos estrangeiros diretos – algo em torno de 34 bilhões de dólares.

Boa parte desse dinheiro vem de empresas alemãs. A ThyssenKrupp, por exemplo, está investindo cerca de 3 bilhões de euros na construção de uma nova siderúrgica em Sepetiba, no Rio de Janeiro. É o maior investimento da companhia no exterior.

A montadora Volkswagen acaba de anunciar investimentos da ordem de R$ 3,2 bilhões no país para os próximos cinco anos. A companhia de navegação e logística Hamburg Süd, que opera em 12 portos brasileiros, planeja investir 1,5 bilhão de dólares nos próximos três a quatro anos no Brasil.

Junto com o ex-cônsul de Blumenau e presidente do conselho de administração da Hering, Hans Prayon, o presidente da Hamburg Süd, Klaus Meves, foi distinguido neste domingo com o prêmio Personalidade Brasil-Alemanha 2007.

Comércio bilateral

O Brasil é o principal parceiro comercial da Alemanha na América Latina. Em 2006, o comércio bilateral atingiu o volume de 12,2 bilhões de dólares (US$ 5,7 bilhões de exportações brasileiras e US$ 6,5 bilhões de importações alemãs). O Brasil exporta principalmente café, minérios e soja, e importa automóveis, tratores, equipamentos têxteis e produtos químicos dos alemães.

A Alemanha é o quinto maior parceiro comercial do Brasil, atrás dos EUA, da Argentina, da China e da Holanda. De janeiro a outubro de 2007, as exportações brasileiras para o mercado alemão foram de US$ 5,8 bilhões – um aumento de 24,4% em relação ao mesmo período do ano passado.


Mais tecnologia e inovação


Bildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift:  Traços da colonização alemã na arquitetura de BlumenauEm Blumenau, os representantes dos dois países discutem oportunidades de negócios bilaterais que se abrem com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) nas áreas de inovação tecnológica, logística e infra-estrutura, biocombustíveis, indústria automobilística, eficiência energética e tecnologia da informação (TI).

Na área de TI, a T-Systems, do grupo Deutsche Telekom, acaba de abrir uma subsidiária em Blumenau. E a SAP, líder mundial em software empresarial, está instalando em São Leopoldo (RS) seu centro de pesquisa e desenvolvimento para a América Latina.

"Só com inovação é possível avançar", diz o ministro do Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, que abre o encontro junto com o ministro alemão da Economia, Michael Glos.  

Segundo Jorge, cerca de 1.500 indústrias no Brasil têm seus próprios departamentos de pesquisa. "Temos muito a aprender com as empresas alemãs, porque ocupam lugares de ponta na geração de conhecimento aplicado a atividades produtivas de alto padrão tecnológico. Não por outra razão, as empresas alemãs ainda superam americanas e chinesas em exportações", disse recentemente.

Na opinião do embaixador alemão em Brasília, Prot von Kunow, em Blumenau, "empresas alemãs, especialmente de pequeno e médio portes, têm a oportunidade de descobrir as boas condições de investimento em uma região do Brasil não tão conhecida como as grandes metrópoles".
 
Geraldo Hoffmann

 


 

Lula anuncia investimentos de US$ 28 bilhões em tecnologia Volta

Mídia eletrônica: Diário da Manhã
http://www.dm.com.br
19/11/2007

Governo Federal anunciará nesta terça (20) um investimento de US$ 28 bilhões até 2010 no Plano Nacional para Ciência e Tecnologia para promover a inclusão tecnológica do país em âmbito mundial, anunciou hoje o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O programa, fruto de um debate entre Governo, empresários e universidades, faz parte dos esforços de incentivar o desenvolvimento econômico sustentável do país, segundo disse Lula durante discurso a empresários brasileiros e alemães em Blumenau (SC).

O plano será financiado com recursos destinados ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) lançado no início deste ano.

Segundo Lula, o Governo Federal anunciará em 15 dias um novo programa industrial com forte "inovação tecnológica" e enviará um novo projeto de reforma tributária ao Congresso antes de 30 de novembro.

"Não vamos ter a política e a carga tributária ideais, mas sim aquelas que forem factíveis para os Governos federal, estaduais e municipais e também para a sociedade brasileira", afirmou.

A pesada carga tributária brasileira é tida por empresários e economistas como um dos principais impedimentos para o desenvolvimento sustentável do país e para investimentos massivos em diversas áreas produtivas. Segundo analistas, Lula deverá usar boa parte de seu capital político para conseguir com que a reforma seja aprovada em um prazo prudente.

Lula insistiu que o Brasil deve crescer e irá viver um novo ciclo de desenvolvimento.

Fonte: EFE