
Segunda-feira, 02 de junho de 2008.
Comentários, dúvidas e sugestões:
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1. Um Oscar para a inovação
2. 'O design não é universal'
3. Lula vê 'guerra necessária' em defesa do etanol
4. Desafios da diplomacia sul-americana
5. Geografia da biomassa será redesenhada pelo novo clima
6. Bloco contém perda de competitividade
7. Células-tronco e medicina regenerativa
8. Brasil pode acompanhar pesquisas mundiais
9. Pesquisa brasileira atrai interesse de multinacionais
10. Corte japonesa concede registro a garrafa de Coca-Cola
11. Inovação alavanca o crescimento econômico do País
12. Doenças crônicas, como asma, também ganharão genéricos
13. Fucapi sedia evento da Rede Norte de Propriedade Intelectual
Um Oscar para a inovação Volta
Mídia Impressa: O Estado de S. Paulo
Patrícia Cançado e Renato Schroeder
02/06/2008
Versão nacional do Idea, concurso de design dos EUA, premia 53 produtos, projeta brasileiros no exterior e traz à tona a discussão sobre o papel do design na economia
O conceito de design é amplo. Não é artesanato nem arte. Muito menos algo no meio do caminho entre os dois. É conceber um produto ou um processo com preocupações não só estéticas, mas também funcionais e econômicas. Por muito tempo, essa discussão foi encarada pela maioria das empresas brasileiras como um assunto menor, quase que de gueto. O País, no entanto, começa a virar essa página.
Nos anos 80, apenas seis escolas formavam designers no Brasil. Hoje são cerca de 300. A efervescência recente da criação nacional chamou a atenção do premiado designer Tucker Viemeister, que convenceu os organizadores do International Design Excelence Awards (Idea), espécie de Oscar do design mundial, a criar uma versão brasileira do prêmio. A competição existe há 30 anos, mas nunca havia saído dos Estados Unidos.
Agora, apenas seis meses depois desse “pedido”, o Brasil quebra a regra e produz pela primeira vez uma versão local do Idea. Na noite da última quinta-feira, 53 produtos foram premiados entre 353 inscritos, que concorreram em 18 categorias - que vão desde singelos sapatos a aviões de luxo.
“O que chamou a atenção foi a quantidade de empresas interessadas em participar. Normalmente, os prêmios de design no Brasil despertam interesse só dos profissionais”, afirma Joice Joppert Leal, coordenadora da Objeto Brasil, entidade sem fins lucrativos para promoção do design e representante do prêmio americano no País.
Segundo ela, todos os vencedores concorreram automaticamente ao prêmio nos EUA. Lá, a entrega dos troféus está marcada para 18 de julho. Já se sabe que doze produtos brasileiros serão premiados na disputa mundial. O nome deles ainda é mantido em segredo.
“Os europeus enxergam o design brasileiro há muitos anos, mas nos últimos cinco anos os americanos e o resto do mundo começaram a olhar para a produção daqui com outros olhos”, diz Newton Gama, dono da N Gama Design e que por 26 anos esteve à frente da área de design da Whirlpool, multinacional americana dona da Brastemp.
Mais do que o reconhecimento individual de cada um desses profissionais, o Idea servirá como uma chancela ao design feito no Brasil, na opinião do especialista em design de marcas,Lincoln Seragini, que participou do prêmio com duas criações - o Café Octávio, de São Paulo, cuja planta baixa tem o formato de um grão de café, e uma máquina de café de coador para a Universal, empresa de médio porte de Petrópolis (RJ) que estava perdendo bons clientes (padarias, principalmente) porque ainda vendia uma cafeteira antiquada.
Os brasileiros não são estreantes em prêmios internacionais de design. Os irmãos Fernando e Humberto Campana tornaram-se referência mundial, influenciando gerações daqui e do exterior. Na década de 70, uma dupla de designers gaúchos, Nelson Ivan Petzold e José Carlos Bornancini, colocou o desenho brasileiro no catálogo de vendas da loja do MoMa, o Museu de Arte Moderna de Nova York. O produto? Talheres de camping criados para a empresa Zivi-Hércules, hoje Mundial.
Outros grandes nomes cresceram com a evolução da indústria local, como Freddy Van Camp e Newton Gama na Cônsul, Oswaldo Mellone, que desenhou maçanetas para a Papaiz, e Angela Carvalho, “dona” do ventilador de teto da Singer. Mais recentemente, Guto Índio da Costa, outra referência no assunto, transformou um ventilador de teto, batizado de Spirit, em ícone do design contemporâneo.
A aproximação com o artesanato projetou nomes como o de Renato Imbroisi, que trabalhou com vários tecelões de diversos Estados do Brasil e de Moçambique, na África, Claudia Moreira Salles, que cria móveis sofisticados com detalhes em palha produzidos por artistas do Piauí, e Carla Tenembaum, que aproximou o artesanato das tecnologias de aproveitamento de resíduos industriais.
Ninguém duvida do potencial criativo do Brasil. Mas ainda há muito a ser feito nessa área. Ao mesmo tempo em que revela um tesouro escondido da maioria dos brasileiros, o prêmio Idea também traz à tona uma discussão importante sobre o papel do design na economia brasileira.
“Por muito tempo, a indústria brasileira copiou, reproduziu ou trouxe patentes de design do exterior”, diz Marcelo Prado, diretor do Instituto de Estudos e Marketing Industrial, coordenador de uma pesquisa que vai investigar o estágio atual do design brasileiro nos mais diversos setores da economia. “Acredito que o Brasil esteja no jardim de infância, mas as empresas estão começando a perceber a competitividade que o design pode trazer.”
A globalização, que derrubou as fronteiras do comércio e aumentou a competição entre as empresas, passou a exigir mais investimentos em produtos e conceitos inovadores. Isso vale também para o Brasil. “As empresas brasileiras, principalmente as exportadoras, têm uma demanda latente por design.”
Quando o Brasil começou a exportar de verdade, a partir de 2001, as empresas tinham um cenário razoavelmente confortável. Com o real desvalorizado, era possível ganhar mercado com preço baixo. “Mas elas foram para fora e perceberam que precisariam evoluir muito”, diz Prado. Experiências mostraram que competir por preço com a China tornou-se praticamente inviável. Muitas empresas brasileiras quebraram no meio do caminho. Outras foram bem-sucedidas justamente porque apostaram em inovação, caso dos chinelos Havaianas e das sandálias Melissa, que levaram para o mundo um autêntico design brasileiro.
'O design não é universal' Volta
Mídia Impressa: O Estado de S. Paulo
02/06/2008
Aos 40 anos, o designer Frank Tyneski desponta como um dos grandes nomes da atualidade. De sua prancheta saíram inovações como a série BlackBerry 7100. Um dos jurados do Idea, Tyneski conversou com o Estado em visita ao Brasil
Quais são as tendências mais fortes do design nos dias de hoje?
Estamos vivendo um momento único no campo do design. A partir da década de 1980, o fator qualidade de um produto praticamente se tornou universal. Todos os produtos concorrentes tinham qualidade similar, não importava a marca. Nos anos 1990, começamos a ver uma tendência de personalização do design - você coloca sua cor, seu toque pessoal. Hoje, as duas tendências se uniram, o que criou um campo de trabalho sem igual para o design. Hoje, todos os produtos são bonitos, são funcionais, são atraentes, e você ainda pode colocar seu toque pessoal. A nova fronteira é a chamada experiência holística do design.
E o que isso significa?
Trata-se de uma experiência holística com as marcas. Ou seja, não é só o design, ou a funcionalidade do produto que contam para o consumidor, pois essas características tornaram-se commodities. Hoje eu digo com toda certeza que o design é o grande embaixador das marcas, que precisam envolver as pessoas. A Apple tem trabalhado bem isso. Eles não vendem só o iPod, ou o iPhone, eles vendem uma experiência de conexão, de convergência.
Podemos dizer que o design está globalizado? O que funciona bem nos Estados Unidos e na Europa tende a ter o mesmo efeito em países como China, Índia ou Brasil?
Eu acho perigoso afirmar isso. O design não é universal, de forma alguma. Na minha experiência com telefones celulares, com empresas como Motorola e Kyocera, eu pude ver o quanto isso é um fato. Os países latinos, por exemplo, são muito receptivos a aparelhos coloridos. É uma cultura de celebração, que as pessoas levam para o dia-a-dia, para a comunicação, para os negócios. Nos EUA, você não consegue vender nenhum celular que não seja cinza ou preto - os consumidores racionalizam demais para ter um celular azul ou cor-de-rosa. Na indústria automobilística é a mesma coisa, os times de design das montadoras quebram a cabeça para adaptar os carros ao gosto e às necessidades locais.
Como você vê o Brasil no cenário do design? Vem algum produto ou designer à sua mente quando se fala em design brasileiro?
Vejo o Brasil como um País de grandes oportunidades para o design. Pode ser um grande exportador de design até mesmo para a Índia e a China. Os indianos são bons em arquitetura da informação, os chineses são bons em cópia. Agora, não me leve a mal, mas quando penso em design brasileiro, o que me vem à mente são as pinturas indígenas da Amazônia. Elas são lindíssimas, mas penso que talvez falte um incentivo governamental para o Brasil fazer seus designers serem conhecidos mundo afora. Quando se fala em Escandinávia, logo pensamos em móveis maravilhosos. Quando se fala em Itália, se pensa em calçados, produtos de moda. O Brasil produz muitas coisas em design, mas falta provocar uma identificação imediata.
Então faltaria uma identidade ao design brasileiro?
Certamente não falta ao Brasil o conhecimento sobre design. Como disse, o Brasil pode ser uma potência em design, pois há criatividade, efervescência. Dá para perceber isso em uma cidade como São Paulo. Mas falta tornar isso estratégico, fazer o mundo conhecer o design brasileiro. Tirar partido dessa cultura de celebração, da arte brasileira, que é rica, e também da exuberância dos materiais crus, naturais. Há uma tendência de ecodesign em que o Brasil pode ser competitivo.
Quem são os grandes nomes do design na atualidade?
Hoje os designers mais importantes estão dentro de empresas, chefiando equipes cada vez mais estratégicas. Eu mencionaria Bruce Claxton, da Motorola, Robert Schwartz, da Procter&Gamble, e Ken Musgrave, da Dell Computer. Eles estão conduzindo grandes negócios, mas pensam artisticamente.
Lula vê 'guerra necessária' em defesa do etanol Volta
Presidente diz que Europa precisa olhar o próprio mapa antes de criticar Brasil pelo desmatamento
Mídia Impressa: O Estado de S. Paulo
Lisandra Paraguassú, ROMA
02/06/2008
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recorreu a uma metáfora bélica ao anunciar como “uma guerra necessária” a que vai travar no cenário internacional em defesa do etanol. Lula, que está na Itália, afirmou que o etanol brasileiro é alvo de uma campanha difamatória que, por vezes, acontece dentro do próprio País. “Mas é uma guerra necessária e o Brasil tem de entrar nela preparado.”
“Essa difamação é de todo mundo, inclusive nossa, no Brasil. Eu tenho dito que, cada vez que falarmos qualquer coisa agora, precisamos saber como isso vai ser usado contra nós na OMC (Organização Mundial do Comércio)”, disse o presidente, ontem, ao receber a imprensa para uma conversa na embaixada do Brasil em Roma.
“O Brasil hoje não é um coadjuvante na política comercial mundial. É hoje um exportador principal de vários produtos. Na medida em que começa a ser um artista principal, começa também a ser muito mais visado, e as pessoas começam a bater.”
Lula abre amanhã, com seu discurso, a Conferência de Cúpula do Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), na qual a inflação mundial dos alimentos será debatida e, mais uma vez, os biocombustíveis deverão ser acusados de causar boa parte da alta nos preços.
Lula argumenta que, apesar das críticas, até agora ninguém apresentou outra alternativa ao petróleo que tenha melhor resultado em emissão de gases estufa que o etanol brasileiro.
Na entrevista, Lula responsabilizou os especuladores pela alta do preço do petróleo. “Não tem nenhum sentido o petróleo estar a US$ 145, US$ 140 o barril. Dizer que é apenas o aumento do consumo na China não é tão convincente”, afirmou. Lula disse que se reunirá com o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, na quarta-feira, para conversará sobre o tema, mas negou a hipótese de a empresa adotar congelamento de preços.
O presidente voltou a rechaçar as críticas feitas ao desmatamento no País. “A União Européia só tem 0,3% da sua mata original. Então, quando for falar com Brasil, primeiro olha o seu mapa”, criticou. Para Lula, os estrangeiros precisam entender que a Amazônia “pertence aos países amazônicos”. “Depois eles podem contribuir para que a gente tenha modelo de desenvolvimento compatível com a nossa floresta em pé. Mas até agora tem muitas palavras e pouco dinheiro.”
Lula também rechaçou as críticas do relatório recente da Anistia Internacional, que comparava o trabalho nas lavouras de cana-de-açúcar a condições de escravidão. “Todo mundo sabe que o trabalho na cana é duro. Mas não é mais duro do que o trabalho em uma mina de carvão, que foi a base de desenvolvimento da Europa. Pegue um facãozinho e passe um dia cortando cana e desça numa mina a noventa metros de profundidade para explodir dinamite para você ver o que é melhor.”
Desafios da diplomacia sul-americana Volta
Mídia Impressa: O Estado de S. Paulo
Marcelo de Paiva Abreu
02/06/2008
A política externa brasileira na América do Sul enfrenta hoje dois desafios, um ao Norte, outro ao Sul. O primeiro tem que ver com as fricções entre Colômbia e seus vizinhos, ameaças à integridade territorial na Amazônia e as fanfarronices de Hugo Chávez. Talvez a atenção se tenha indevidamente concentrado neste desafio e deixado de lado outro que é ainda mais grave: o aprofundamento das contradições entre os interesses brasileiros e a manutenção do Mercosul na sua situação atual, com a Argentina à beira de outra grave crise.
Quanto ao Norte, tem ganho corpo a idéia de que o incidente de fronteira entre a Colômbia e o Equador teria marcado uma guinada do governo Lula, com o fortalecimento da diplomacia profissional em detrimento dos entusiasmos bolivarianos que emanam de assessores presidenciais. Trata-se de simplificação indevida de realidade mais complexa. O Itamaraty tem tradição de competência em muitas áreas. Uma delas é na construção de versões que valorizam suas iniciativas e minimizam a importância dos momentos menos felizes de sua atuação. Muitas vezes há confluência de interesses na ornamentação da história institucional com interesses de embelezamento autobiográfico, com o primeiro objetivo legitimando o segundo. A versão da troca de bastão, do Palácio do Planalto para o Itamaraty, cumpre o objetivo de embelezar a ação do Itamaraty, antes da crise, e também algumas biografias. Tem base na idéia de que teria sido natural - até o incidente Colômbia-Equador - que a diplomacia profissional aceitasse de bom grado ceder esferas de influência a assessores com acesso privilegiado aos ouvidos do presidente.
Por que será que o Itamaraty não defendeu com mais pertinácia, antes da crise, a adoção de atitude mais profissional e alinhada com os interesses nacionais de longo prazo? Suspeita-se que a resposta tenha que ver com o fato de que segmentos substanciais da Casa tinham simpatias bolivarianas e embarcaram alegremente na canoa do chavismo. E que os equívocos da política externa brasileira na América do Sul até a pretensa guinada não devam ser lançados exclusivamente à conta das maléficas influências extra-Itamaraty.
Supondo que pirotecnias primitivas ao estilo União das Nações Sul-Americanas (Unasul) possam ser capazes de conter temporariamente as tensões no Norte da América do Sul, e que o presidente Lula de fato faça ouvidos moucos à ladainha dos bolivarianos tupiniquins, os esforços diplomáticos mais sérios do Itamaraty deveriam ser direcionados para preservar as relações do Brasil com a Argentina da crescente ameaça de deterioração. Para desapontamento dos defensores brasileiros do modelo argentino de calote-com-desenvolvimentismo, a situação econômica da Argentina está apontando para outra crise, de novo combinando inflação alta com fraco crescimento econômico.
É difícil exagerar o contraste, hoje, entre Argentina e Brasil, tanto do ponto de vista econômico quanto político. Na Argentina, o período de crescimento muito rápido com o uso de capacidade ociosa dá mostras de chegar ao fim. Desde 2002, a economia argentina vem crescendo a taxas superiores a 8%. Em relação ao pico de 1998, entretanto, o Produto Interno Bruto (PIB) argentino cresceu à taxa anual de apenas 2,2%, ainda menor do que os medíocres 2,8% do Brasil. Para escolher o “modelo” argentino seria preciso ter preferência por menor crescimento com maior variância e calote, algo dificilmente classificável como racional. Tarifas de energia subsidiadas, somadas à falta de expansão de capacidade, têm levado a “apagões” de todo o tipo, com efeitos sobre níveis de investimento e de atividade. As exportações agrícolas estão 250% acima do nível de 2002, mas, apesar disso, o governo, ao aumentar o nível de “retenções” das receitas de exportação, provocou enfrentamento com os exportadores e restrições de oferta. O governo continua manipulando os índices de preço, enquanto a inflação verdadeira provavelmente excede 20% ao ano.
Em contraste, o Brasil, embora dê sinais de pressões inflacionárias, desregramento fiscal e deterioração das contas externas, acumula elogios de analistas e manifestações de interesse de investidores. Obtém investment grade e ameaça tornar-se produtor importante de petróleo. Enquanto a popularidade de Lula beira os 60%, a de Cristina Fernández mergulhou 30 pontos, para alcançar 26%.
A tarefa de vender ao mundo a idéia de que negociar com o Brasil significa, em muitos casos, incluir o restante do Mercosul é árdua. Tais dificuldades podem ser ilustradas por negociações em andamento. O corolário da incapacidade de o Mercosul definir uma Tarifa Externa Comum sem extensa lista de exceções é que, nas negociações na Organização Mundial do Comércio (OMC) e com a União Européia, por exemplo, a apresentação de propostas pouco realistas que incluem exceções tarifárias de todos os membros na negociação de produtos sensíveis.
Nesse quadro, é irrealista considerar, com seriedade, divagações, mesmo que presidenciais, sobre política macroeconômica comum, moeda comum e quase qualquer coisa comum. Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer o papel central que devem ter relações políticas sólidas com a Argentina. O Itamaraty deve conceder prioridade absoluta ao aprofundamento e à reformulação do atual arranjo de integração regional rumo a uma fórmula que ao mesmo tempo evite hostilizar a Argentina e amplie o raio de manobra para que o Brasil negocie extra-Mercosul - para minimizar a tentação de escolher entre o mundo e o Mercosul.
*Marcelo de Paiva Abreu, doutor em Economia pela Universidade de Cambridge, é professor titular do Departamento de Economia da PUC-Rio
Geografia da biomassa será redesenhada pelo novo clima Volta
Mídia Impressa: Folha de S. Paulo
EDUARDO GERAQUE
DA REPORTAGEM LOCAL
02/06/2008
As mudanças climáticas previstas para este século, especificamente dentro das fronteiras do Brasil, vão redefinir a geografia da produção da biomassa. Este processo, portanto, terá um impacto significativo sobre a produção dos biocombustíveis, uma das grandes bandeiras do governo federal.
"O mercado da produção de cana-de-açúcar [incluído também o que vai para os alimentos] deverá movimentar, em 2020, R$ 47,5 bilhões por ano", afirma Hilton Pinto, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), à Folha. Isso significa, em relação aos números da produção de cana de 2007, um aumento de 95,5%.
O prejuízo, entretanto, deverá ser debitado diretamente na conta dos produtores de soja, o principal grão usado para a produção de biodiesel. "Aqui, pode haver uma perda, no mercado nacional, de até R$ 6 bilhões". Em comparação com o mercado de 2007 deste grão, seria uma redução de 19,5%.
O cientista de Campinas é um dos autores de um estudo ainda inédito sobre o impacto das mudanças do clima sobre a agricultura. "Infelizmente, pelo resultado que nós temos, dá para perceber que o Nordeste do Brasil será a área mais afetada [pelo clima]", afirma Pinto.
Segundo ele, os cálculos do mercado da cana e da soja para 2020 também vão constar desse novo trabalho. "Nós fizemos uma análise minuciosa para todos os 5.172 municípios brasileiros", diz o agrônomo. Ao todo, dez culturas ainda estão sendo analisadas.
Enquanto a produção de cana ficará prejudicada em Estados como Pará, Piauí e Tocantins (em todos existem planos para a ampliação desta cultura), a soja deverá perder terreno, além do Nordeste (no oeste da Bahia já existem algumas plantações), também no Centro-Oeste, diz o estudo. "Mas, em compensação, ela deve ganhar mais áreas nos Estados da região Sul do país", diz Pinto.
Mamona em falta
O drama nordestino, em termos de produção de biomassa, deve provocar outra conseqüência. Deve ser o fim de um dos programas sociais do governo federal na área da energia. Com um aumento de até 3C nos termômetros da região, segundo Pinto, a produção da mamona -feita pelo pequeno produtor com incentivos públicos- vai ficar totalmente inviável.
Apesar de as condições climáticas ficarem favoráveis para a cana-de-açúcar em quase todo o país, segundo tanto os dados paulistas quanto os da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que também fez as suas próprias estimativas, o problema disso, no caso específico do semi-árido, é aumentar a pressão sobre a biodiversidade da região.
Várias espécies que vivem no bioma caatinga, por exemplo, correm o risco de extinção. É exatamente sobre essa região brasileira, entre outras, que os estudos que projetam o crescimento de áreas de cana-de-açúcar mostram que essa cultura será muito bem-vinda. "É uma cultura que adora bastante o calor e o carbono", diz o pesquisador da Unicamp.
Bloco contém perda de competitividade Volta
Mídia Impressa: Valor Econômico
Sergio Leo
02/06/2008
Argentina e México, dois dos principais parceiros comerciais do Brasil que mais aumentaram as compras de produtos brasileiros nos últimos meses, foram os países, na América Latina, cuja moedas mais se depreciaram em relação ao real, desde 2003. De janeiro de 2007 a março de 2008, o real valorizou-se 45% em relação ao peso argentino e 40% em relação à moeda mexicana, segundo estudo da representação do Brasil na Associação Latino Americana de Integração (Aladi). Especialmente no México, quem garantiu a continuidade do crescimento das exportações foi o setor automotivo.
O real valorizou-se em relação ao dólar e ao euro e também em relação às moedas dos maiores países da Aladi, mercado preferencial dos produtos industrializados de marca brasileira. A valorização do real em comparação às moedas dos cinco maiores países da Aladi (Argentina, Chile, Colômbia, México e Venezuela) foi de 70%, em média, entre janeiro de 2003 a março deste ano (75% em relação à moeda argentina, 120% em relação à mexicana).
A apreciação do real em relação ao peso mexicano foi quase idêntica à verificada em comparação ao dólar americano. Mas enquanto o Brasil viu minguarem suas exportações ao mercado dos Estados Unidos, mais caras em dólar, elas cresceram para o México (ainda que apenas 3,8% nos primeiros quatro meses deste ano). Motores de automóveis e veículos pesados carregam boa parte do mérito por esse desempenho. Não é à toa que os empresários brasileiros comemoram o acordo automotivo que reduziu as barreiras tarifárias desse tipo de produto no mercado mexicano.
Na Argentina, o caso é diferente. O forte crescimento econômico do país (que começa a causar problemas de inflação e desabastecimento no vizinho) tornou o parceiro do Brasil um consumidor voraz não só de veículos. É a Argentina, por exemplo, quem impediu, no primeiro trimestre, a queda nas exportações de mercadorias de informática e telecomunicações, segundo as estatísticas da Associação Brasileira da Indústria Eletroeletrônica (Abinee). Entre os principais importadores de celulares do Brasil, foi o único com crescimento significativo nas compras (45%), e quem evitou uma queda nas exportações brasileiras de eletroeletrônicos.
Mercosul sustenta exportações do Brasil
Os dados do Ministério do Desenvolvimento permitem perceber que, enquanto o aumento das exportações para o México se concentra em poucos bens, na Argentina o crescimento das vendas de produtos brasileiros se dispersa por mais itens. Quem mais aumenta as exportações à Argentina ainda são os fabricantes de máquinas agrícolas, mas supera os 20%, no primeiro quadrimestre, o crescimento das vendas dos produtos situados abaixo dos dez mais vendidos ao vizinho.
Hoje, quando o Ministério do Desenvolvimento divulga os dados da balança comercial de maio, será possível verificar se as exportações brasileiras continuam atravessando sem muito dano as turbulências na economia argentina (que levaram, nos últimos dias, à insólita desvalorização do peso, com esforços do governo argentino para sustentar a cotação da moeda nacional). Mas os números levantados por estudos como os da equipe do embaixador Régis Arslanian, na Aladi, indicam a importância do Mercosul para a estratégia comercial brasileira.
É a existência do Mercosul que permite amenizar a perda de competitividade dos produtos nacionais no mercado vizinho, com a queda no poder de compra do peso. E é o que ajudou um grande número de empresas multinacionais a instalar no Brasil suas bases de exportação para a região - fazendo com que, hoje, mesmo com a redução de competitividade, permaneça ativo o intercâmbio de produtos, partes e peças de bens industrializados entre os dois maiores países do Cone Sul, com vantagens para o Brasil.
O agravamento possível - e previsível - da crise argentina tem o potencial de fazer ressurgirem atritos no campo comercial entre os dois sócios, e deve tornar mais ácidas as reivindicações do governo Cristina Kirchner por uma política comum que atraia investimentos para a Argentina e evite a migração de investidores ao Brasil.
A resposta mais fácil a essas pressões é lembrar ao governo argentino que a melhor forma de atrair investimentos é assegurar a estabilidade macroeconômica e evitar ações hostis ao setor privado, como as que se tornaram comuns no mercado vizinho, com controles de preços, barreiras à exportação e medidas retaliatórias contra empresas em atrito com o governo. Mas nada indica que seja o tipo de resposta aceita pela Casa Rosada.
Antes que o comportamento do governo argentino dê motivos para novos atestados de óbito do Mercosul, por aqueles que, há anos, decretam sem êxito a morte do bloco, cabe analisar com seriedade o papel que essa união aduaneira imperfeita tem exercido para o desempenho comercial brasileiro, e no processo de decisão das matrizes das empresas internacionais com interesses no mercado sul-americano.
Células-tronco e medicina regenerativa Volta
Mídia Impressa: Valor Econômico
Reinaldo Guimarães
02/06/2008
O tema é relevante, logrou mobilizar argumentos e paixões de importantes segmentos da sociedade e, uma vez mais, reiterou o caráter laico do Estado brasileiro. Com a decisão do Supremo Tribunal Federal de 29/05, a Lei de Biossegurança prosseguirá tendo vigência integral e os pesquisadores continuarão a trabalhar com células-tronco de todos os tipos, inclusive as embrionárias humanas.
A utilização experimental de células-tronco humanas adultas, embrionárias ou adultas induzidas à totipotência é apenas um capítulo de um conjunto maior de tecnologias denominadas terapias celulares. Essas, por sua vez, são parte de um novo e promissor campo da medicina denominado medicina regenerativa, que ainda engatinha em suas potencialidades. Confirmadas, talvez se possa falar no estabelecimento de um novo paradigma no cuidado à saúde humana.
A modernidade instituiu um paradigma crescentemente intervencionista sobre os corpos dos indivíduos cujo epítome são as grandes e heróicas contribuições da cirurgia e o crescente número de dispositivos mecânicos e eletroeletrônicos introduzidos nesses corpos. Foi desse paradigma que derivaram os mitos dos andróides e do homem biônico. A medicina regenerativa caminha em sentido oposto: a regeneração do corpo pela utilização de sua matéria original. A recuperação do princípio hipocrático do "Vis Medicatrix Naturae" - o viés curativo da natureza -, agora num enquadramento molecular e conduzido para alvos determinados e previamente estabelecidos. Quando colocamos a questão das células-tronco nessa perspectiva mais ampla, vê-se que as possibilidades são imensas.
Ainda de um outro ponto de vista, a medicina regenerativa pode estabelecer uma mudança de rumos nas práticas de cuidado à saúde. O paradigma intervencionista é intensivo em tecnologias "duras" e seus custos, faz tempo, tendem a crescer exponencialmente. Até onde a vista alcança - e devemos reconhecer que ela ainda não alcança muito longe -, as terapias celulares, por serem quase nada invasivas, tendem a impor menos sofrimento aos pacientes e a serem muito mais custo-efetivas.
Mas qual é o estado da arte das terapias celulares com células-tronco? Onde está a fronteira mundial? Como já foi dito, engatinha-se e, em resumo, o que se tem é: 1) muitas evidências experimentais em modelos animais; 2) muitas evidências clínicas derivadas de estudos destinados a estabelecer a segurança dos procedimentos (estudos clínicos fases I e II, com poucos pacientes); 3) poucas evidências clínicas referentes à efetividade dos procedimentos (estudos fase III controlados e randomizados, com muitos pacientes); 4) muitas interrogações sobre o mecanismo de ação das células-tronco nos tecidos lesados; 5) pouca compreensão sobre os mecanismos que governam os processos de diferenciação celular. É certo que, sem avançar bastante nesses aspectos, os estudos continuarão a ser experimentais. Não poderão ser incorporados nas práticas ordinárias de saúde.
As terapias celulares, por serem pouco invasivas, tendem a serem mais custo-efetivas, impondo muito menos sofrimento
Essa visão realista coloca para os pesquisadores e profissionais de saúde uma grande responsabilidade. Em conjunto com as instâncias de revisão ética da pesquisa em seres humanos (sistema CEP"s/Conep), eles serão os principais fiadores da decisão do STF. Estarão na alça de mira da sociedade que, agora que foi chamada a debater o assunto, tomou posição e certamente ficará atenta aos abusos que eventualmente vierem a ocorrer. E já há algum tempo abusos são apontados, em particular envolvendo profissionais que, fora de protocolos devidamente controlados e aprovados por uma comissão de ética, injetam células em pacientes que não mais dispõem de opção terapêutica regular. Mediante alta retribuição financeira, naturalmente.
Do mesmo modo, o sistema brasileiro de revisão ética de pesquisas - criado na esfera do Conselho Nacional de Saúde - deve ser fortalecido. Muito embora bem organizado (uma comissão nacional e comissões locais descentralizadas), ele apresenta dois problemas importantes: não está dando conta do crescimento da pesquisa clínica no país e não é sustentado por uma norma de nível legal que, na opinião da maioria dos juristas, é necessária para dar segurança jurídica às suas decisões.
Por que um país como o Brasil deve investir num terreno ainda tão movediço e tão cheio de interrogações? A produção de conhecimento científico no mundo é brutalmente assimétrica e a geração de inovações é ainda mais. Mais de dois terços de todas as publicações científicas em saúde são oriundas de cinco países do hemisfério norte. Apenas cerca de 3% dos recursos financeiros mundiais utilizados em pesquisa e desenvolvimento em saúde são oriundos dos cerca de 140 países de renda média e baixa. Essa assimetria é fruto de muitas variáveis, dentro e fora do terreno estritamente científico e tecnológico. Mas é certo afirmar duas coisas: 1) há um lugar para o Brasil no campo da produção científica e tecnológica em saúde; 2) esse lugar será tanto mais confortável quanto menor for a distância que nos separa da fronteira mundial num tema determinado. Esse é exatamente o caso das terapias celulares e da medicina regenerativa. Todos estão começando. Nossa distância dos líderes ainda não é muito grande. É importante não deixá-la crescer.
Qual é a responsabilidade dos governos federal e estaduais? Estimular a formação de novos grupos de pesquisa, apoiar a atividade dos grupos existentes, contribuir para a formação de pesquisadores nessa área e prover infra-estrutura de pesquisa. Qual a responsabilidade do sistema brasileiro de revisão ética de pesquisa com seres humanos? Atuar conscienciosa e eficientemente no exame dos protocolos enviados para seu exame.
O Ministério da Saúde vem apoiando grupos de pesquisa em células-tronco desde 2004. Até agora foram 45 projetos de pesquisa, selecionados em cooperação com o Ministério da Ciência e Tecnologia. Dentre estes, há um grande estudo multicêntrico para avaliar a efetividade de células-tronco adultas autólogas em quatro doenças do coração. No total, até agora, foram despendidos cerca de R$ 24,5 milhões. Ainda este ano, será lançada a Rede Nacional de Terapia Celular, cujo objetivo é o de coordenar e potencializar as atividades de pesquisa nos grupos já atuantes no país e fornecer infra-estrutura para a derivação de linhagens brasileiras de células-tronco para pesquisas. Também em cooperação com o Ministério de Ciência e Tecnologia, os investimentos nesse projeto chegarão a cerca de R$ 21 milhões em dois anos.
*Reinaldo Guimarães é secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde.
Brasil pode acompanhar pesquisas mundiais Volta
Mídia Impressa: Valor Econômico
Raquel Landim
02/06/2008
Vencedor do prêmio Nobel de Medicina, Mario Capecchi avalia que ainda há tempo para o Brasil participar da "aventura" com células-tronco embrionárias, após a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) na semana passada, que autorizou a pesquisa. "O Brasil tem muitos cientistas jovens. Não é possível prever onde as descobertas importantes serão feitas", disse ao Valor.
O cientista acredita no potencial da pesquisa para encontrar a cura de doenças como Parkinson, Alzheimer ou diabetes através da descoberta de novos remédios ou da fabricação de células para transplantes. Mas enfatizou que os resultados não virão no curto prazo, mas em "15 ou talvez 20 anos".
Capecchi dividiu o prêmio Nobel de 2007 com dois pesquisadores por suas descobertas de como produzir camundongos mutantes. Ele desenvolveu uma tecnologia, o "gene targeting", que insere um gene específico nas células-tronco embrionárias dos ratos, dando origem a animais híbridos, com metade do DNA original e metade mutante. Esse método permite estudar as funções de genes específicos, que podem ser "nocauteados".
Filho de pai italiano e mãe americana, Capecchi nasceu em Verona, em 1947, e teve uma infância difícil. O pai morreu na Segunda Guerra Mundial e a mãe foi enviada para um campo de concentração. Ele viveu três anos nas ruas e chegou a passar fome. Aos nove anos, reencontrou a mãe, que sobreviveu aos nazistas. A família emigrou para os Estados Unidos, país onde descobriu sua vocação como cientista.
"Qualquer restrição à pesquisa não é uma boa idéia. Minha filosofia é que a busca de informação não têm efeitos ruins", disse. Capecchi defendeu que as aplicações da ciência devem ser analisadas por toda a comunidade, mas que "nada é definitivo". O cientista chegou a citar a clonagem humana. Ele disse que é "totalmente contra" hoje, mas consegue imaginar uma situação em que seria a única maneira de ter filhos. A seguir os principais trechos da entrevista.
<<Valor: As pesquisas com células-tronco geram muita expectativa. As pessoas esperam a cura para doenças como Parkinson, Alzheimer, diabetes e até paralisia. É possível alcançar resultados no curto prazo?
<<Mario Capecchi: As promessas são enormes, no entanto, não são para um futuro imediato. Temos que entender como trabalhar com células-tronco, como criá-las de uma forma que funcionem adequadamente. Minha estimativa é que vai levar 10, 15, talvez 20 anos. Por outro lado, se não fizermos a pesquisa, nunca chegaremos lá. É uma pesquisa extremamente excitante e importante, mas ainda para um futuro distante.
Valor: A pesquisa com células-tronco será mais valiosa para a descoberta de novos medicamentos ou para o transplante?
Capecchi: Nunca coloque todos os ovos em uma cesta. Meu palpite é que as células-tronco serão utilizadas para ambos os propósitos. A promessa é conseguir transplantes diretos, mas também é importante a habilidade de isolar células e utilizá-las para análise de medicamentos. O mais fácil é criar células in vitro e trabalhar para a descoberta de remédios, mas depois é preciso testá-los em humanos e observar se não há efeitos colaterais. É importante perseguir os dois.
Valor: O senhor desenvolveu uma poderosa ferramenta de pesquisa, o "gene targeting". Como essa técnica pode ajudar no tratamento de doenças hoje incuráveis?
Capecchi: Não utilizaremos células-tronco apenas como células-tronco. Queremos modifica-las e uma maneira de fazer isso é mexer em um gene específico. Já podemos modificar genes em células-tronco embrionárias de camundongos da maneira que quisermos e o mesmo está começando com as humanas. É aí que está o poder: modificar. Se você trabalha, por exemplo, com a doença de Parkinson, quer que as células-tronco controlem a má-formação dos neurônios ou produzam agentes capazes de induzi-los a funcionarem normalmente. Serão necessárias muitas mutações e isso é possível com o gene targeting.
Valor: O senhor criou animais híbridos, com metade do DNA original e metade mutante. Enfrentou muita controvérsia?
Capecchi: Nosso pacientes são ratos. Não enfrentamos muita controvérsia porque as pessoas entendem que é importante fazer experimentos com os ratos, aprender e então aplicar em humanos. No início, sim, tivemos uma discussão enorme sobre a tecnologia de recombinar DNA. A quantidade de papelada que tínhamos que fazer no início da pesquisa era imensa e isso nos atrasou muito. Mas, com o tempo, ficou claro que nada ruim aconteceu por conta da recombinação de DNA.
Valor: Como o senhor se sente em destruir embriões? O senhor tem questionamentos éticos?
Capecchi: Certamente tenho dúvidas, mas há outros aspectos. Por conta da fertilização in vitro, embriões foram gerados e estocados em geladeiras. Quando a geladeira fica cheia, são simplesmente jogados fora. Se os embriões são mortos de qualquer forma, por que não utiliza-los para bons propósitos? E há uma outra questão ética. Temos pacientes com Alzheimer, Parkinson, diabetes. Não devemos tentar encontrar o melhor tratamento possível? É correto ter a tecnologia e não aplicar?
Valor: O Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro aprovou uma lei que libera a pesquisa com células tronco embrionárias. É muito tarde ou ainda há tempo para o Brasil se beneficiar dessa pesquisa?
Capecchi: Ainda há muito o que aprender. Ninguém aplicou essa tecnologia ainda. O Brasil tem muitos cientistas jovens. Não é possível prever onde as descobertas importantes serão feitas. Estou muito feliz com a aprovação e espero que o Brasil contribua com essa aventura.
Valor: A pesquisa em células-tronco pode atrair investimento para o Brasil e estimular o desenvolvimento econômico?
Capecchi: A saúde é extremamente importante para o desenvolvimento econômico. Mão-de-obra saudável e produtiva é pré-requisito para o desenvolvimento. Sem isso, não existe economia forte. Pessoas talentosas que sofrem de Parkison ou Alzheimer se tornam, de repente, disfuncionais. Uma coisa interessante da biotecnologia é que não é nem de longe tão caro quanto a física, que requer máquinas enormes e tecnologia de ponta. Nesse sentido, é mais fácil conseguir fundos para as pesquisas.
Valor: O senhor nasceu na Itália, um dos poucos países do mundo que proíbe a pesquisa com células-tronco embrionárias. O que um país perde ao optar por não desenvolver essa tecnologia?
Capecchi: O investimento em saúde em qualquer país é enorme. Através de biotecnologia e pesquisa médica, os tratamentos se tornarão mais baratos e efetivos. O país que não investir ficará para trás e dependerá de outros para desenvolver tratamentos. E há uma questão ética: por que um país deve prover toda a cura e outro somente tirar vantagem sem ajudar? É algo que todos devem estar preocupados.
Valor: A lei que foi aprovada no Brasil autoriza pesquisa em embriões inválidos ou congelados por mais de três anos. O senhor acha que é restritivo?
Capecchi: Qualquer restrição não é uma boa idéia. Minha filosofia é que a busca de informação não tem efeitos ruins. É a aplicação que é boa ou ruim, exige reflexão e envolvimento de todos. Mas um aspecto importante é que nada deve ser definitivo. Um exemplo é a fertilização in vitro. Quando surgiu, as pessoas estavam horrorizadas. Hoje é rotineiro em vários países. Esse é um exemplo de como a sociedade muda. A clonagem humana, por exemplo, seria terrível. Não apoiaria isso agora, mas consigo imaginar uma situação em que grande parcela da população se tornasse estéril e não pudesse ter filhos a não ser por clonagem. É preciso manter a mente aberta.
Valor: O senhor teve uma infância difícil. Isso o influenciou?
Capecchi: É difícil responder, porque não pode ser repetido. Não posso viver duas vidas e comparar (risos). Meu palpite é que a experiência me tornou confiante. Foi uma conseqüência, já que tinha que me proteger, encontrar comida, cuidar de mim ainda muito jovem. Faço ciência da mesma forma. Tento tornar o meu laboratório auto-suficiente.
Pesquisa brasileira atrai interesse de multinacionais Volta
Mídia Impressa: Gazeta Mercantil
02/06/2008
A inovação que as indústrias farmacêuticas tanto precisam pode não estar dentro dos próprios laboratórios. Uma legião de pesquisadores espalhados pelo mundo pode deter hoje ferramentas importantes para o desenvolvimento de novos medicamentos. O único problema é conseguir unir todas as pontas desse novelo para costurar algo realmente útil. No Brasil, um País que detém um quinto da biodiversidade mundial e conta com um grande número de pesquisadores dentro das universidades, o problema vai mais longe e esbarra na falta de regras claras e na burocracia.
"Sabemos que a inovação hoje não está mais concentrada dentro das empresas, por isso temos de buscar oportunidades em diversos lugares, e o Brasil é um deles", explicou João Sanches, diretor de relações institucionais da Merck Sharp & Dohme. Segundo ele, 60% da economia norte-americana atualmente está baseada em setores que vivem da inovação, sendo que 70% disto vem de fora dos EUA. "A inovação está por toda a parte e é preciso ir buscá-la". Por isso, a Merck fechou 58 acordos no último ano, mas a única região que ficou de fora foi a América Latina.
De acordo com Sanches, quando se descobre um nova droga, só para fazer estudos clínicos o tempo no Brasil é de oito a nove meses enquanto na Argentina, por exemplo, este prazo é de três ou quatro meses.
Mesmo com a riqueza da biodiversidade e com o recente apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a falta de regras claras é outro empecilho brutal para o avanço das pesquisas. Um exemplo claro disso são os diversos estudos desenvolvidos hoje pelas universidades e que vão até o limite do que pode ser feito dentro de uma faculdade. Dali para frente, o que diz respeito a produzir o medicamento, testar e colocar no mercado efetivamente, que deveria ser função de uma empresa, não é possível ser feito. "Não existem no Brasil leis claras para acordos entre as empresas e as universidades, o que faz com que estas pesquisas, muitas vezes, acabem se perdendo no caminho", explicou o diretor geral da multinacional inglesa especializada em biotecnologia Shire pls, Roberto Marques.
Por esse motivo, recentemente, a empresa se viu impossibilitada de investir em uma pesquisa que a Universidade de São Paulo (USP) realiza para encontrar uma substância que auxilia no combate ao câncer de mama. "As pesquisas, no final, são sempre interrompidas precocemente por falta de recursos, sendo que nós teríamos muito interesse em ir até o final".
Outro empecilho para o avanço da pesquisa é a lei de patentes, considerada obsoleta e insegura para quem investe. "Em outros países a lei é mais ampla e se permite, por exemplo, a patente de um conceito", acrescentou Marques. Segundo ele, as regras são fundamentais em um setor no qual os investimentos são muito altos. A Shire investe em pesquisa e desenvolvimento 47% da receita de US$ 3 bilhões anuais.
A diretora de assuntos corporativos da norte-americana Genzyme, Eliana Tameirão, confirmou que a elaboração de um medicamento baseado em biotecnologia é muito caro. Segundo ela, basta comparar o que é gasto por outros setores como o de eletroeletrônicos e automóveis, que investem de 4% a 6% do faturamento, enquanto o setor farmacêutico gasta 18%. "No nosso caso, investimos 20% da receita".É justamente essa falta de regras que pode deixar o País para traz na corrida da biotecnolgia, considerada uma das grandes alternativas para a indústria farmacêutica, que vem sofrendo com a quebra de patentes nos últimos anos. "Não vejo outro caminho para essa indústria que não passe pela biotecnologia", disse Eliana Tameirão.
Mesmo tendo avançado na área de biocombustíveis e alimentos transgênicos, só agora o País conseguirá reunir recursos para ir ao maior evento de biotecnologia internacional, a Convenção Mundial de Biotecnologia, que será realizada em San Diego, na Califórnia (EUA) entre 17 e 20 de junho. "O Brasil nunca participou até por falta de organização, apesar de sua riqueza natural e tecnologias", afirmou Eduardo Emrich Soares, diretor presidente da Fundação Biominas.
O instituto, que trabalha no incentivo a bionegócios e à pesquisa científica no Brasil desde 1990, assumiu a organização para que o País não ficasse mais de fora. Assim, conseguiu obter o patrocínio de 50% do BNDES e do Ministério da Saúde e 50% ficou a cargo de empresas como a Merck e a Genzyme, entre outras. "Sempre estranhamos a falta de participação do Brasil quando andávamos nestas feiras, por isso resolvemos incentivar", explicou o diretor da Merck.
Segundo Eliana, a feira é extremamente importante uma vez que consegue reunir acadêmicos, empresas e representantes de governos tudo em um mesmo ambiente para que se fechem negócios efetivamente. Já estão marcados mais de 12 mil encontros de fomento, informou Eliane. Com certeza uma boa oportunidade para as brasileiras.
Corte japonesa concede registro a garrafa de Coca-Cola Volta
Mídia Eletrônica: http://jbonline.terra.com.br
02/06/2008
A Alta Corte de Propriedade Intelectual do Japão, contrariando a decisão do Escritório de Patentes local, reconheceu a tradicional garrafa de Coca-Cola como marca registrada da companhia norte-americana no país asiático. Pela primeira vez, um recipiente será registrado como marca no Japão.
Toshiaki Iimura, que presidiu o julgamento, apontou, como fundamentos para a decisão, que o formato da garrafa de Coca-Cola é amplamente reconhecido como um símbolo da companhia líder na fabricação de refrigerantes no mundo, e que as vendas domésticas do produto batem recordes sucessivos desde seu lançamento no país, em 1957.
A Corte também levou em consideração uma pesquisa conduzida pela Coca-Cola em que a maioria os participantes reconheceram o recipiente da bebida entre várias outras garrafas distintas. O fato de que não há outras garrafas similares no mercado também foi observado, bem como os diversos livros publicados no mundo sobre o recipiente.
A garrafa de Coca-Cola é registrada como marca em diversos países do mundo, incluindo Estados Unidos, Rússia e China.
Inovação alavanca o crescimento econômico do País Volta
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01/06/2008
Empresas aproveitam os bons presságios e anunciam investimento em pesquisa e desenvolvimento para garantir o desenvolvimento econômico nacional
O CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) divulgou ontem uma norma regulando os direitos sobre as criações intelectuais resultantes de auxílios e bolsas concedidos pelo Conselho, bem como a participação nos ganhos econômicos da exploração de patente ou direito de proteção. Essa nova decisão visa proteger o conhecimento e a transferência de produtos realizados em ambiente acadêmico para o setor produtivo. A titularidade da patente, de acordo com a norma, será de responsabilidade da instituição onde as pesquisas são realizadas. A notícia cai como uma luva diante do novo cenário econômico e político que vem sendo desenhado no Brasil, onde o investimento em P&D é a grande onda no mundo empresarial.
O novo cenário tem apoio do Governo Federal, que prevê mais de R$ 250 bilhões voltados para a Política de Desenvolvimento Produtivo. Como conseqüência, as palavras-chaves são inovação e propriedade intelectual. Prova disso é o total de patentes depositadas pelo Brasil no USPTO, órgão oficial norte-americano, que cresceu 55% entre 2001 e 2006. Outra comprovação do avanço do País nessa área é o saldo da balança comercial do agronegócio, que atingiu a marca história de US$ 49,7 bilhões em 2007, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). No período de 2000 a 2007, o resultado da balança comercial subiu 235,8%. Somente as exportações acumulam alta de 183%, fechando em US$ 58,4 bilhões em 2007.
Exemplos não faltam: . A Natura, por exemplo, aumentou seus investimentos em atividades de P&D no Brasil de US$ 33 milhões em 2005 para US$ 44 milhões em 2006.
. O Aché Laboratórios Farmacêuticos, o segundo maior fabricante de genéricos do País, também aumentou seus investimentos em P&D de US$ 6 milhões em 2006 para US$ 20 milhões na primeira metade de 2007, criando uma carteira de propriedade intelectual de 90 patentes e mais de 1000 marcas registradas.
. A Biolab Sanus Farmacêutica é um outro exemplo de empresa brasileira dedicada à inovação: investe cerca de 7% de seus lucros em P&D.
. A Eletrobrás vai investir mais de R$ 350 milhões em P&D em 2008.
. A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) tem aumentado cada vez mais o número de patentes depositadas, bem como o investimento em inovações que fizeram com que a balança econômica oriunda do agro negócio atingisse números recordes em 2007.
“O respeito e uso dos direitos de propriedade intelectual constituem um mecanismo que facilita a interação entre conhecimento, inovação e invenção”, afirma Roberto Castelo Branco, Consultor da Embrapa e um dos principais estudiosos da importância das patentes para o crescimento da economia do País.
Doenças crônicas, como asma, também ganharão genéricos Volta
Mídia Eletrônica: http://www.cosmo.com.br
Adriana Menezes / Agência Anhangüera
01/06/2008
Hoje já é possível tratar 85% a 90% das doenças comuns com medicamentos genéricos, como hipertensão, diabetes, depressão. Recentemente, chegaram ao mercado os anticoncepcionais e antibióticos, mas a novidade que está por vir é voltada para doenças mais crônicas, como asma.
O foco agora é liberar os medicamentos que ficaram em regime de exceção, em 99, quando foi criada a legislação dos genéricos. "Estamos trabalhando com produtos como inaladores para asma, doença crônica para a qual ainda não existe genérico. É importante para pacientes de uso crônico", defende Odnir Finotti, vice-presidente da Associação das Indústrias de Medicamentos Genéricos (Pró Genéricos).
A regulamentação ainda está sendo ajustada. Para Finotti, a penetração dos genéricos nas categorias de medicamentos destinado ao tratamento de doenças crônicas é o principal impulso de crescimento das indústrias de genéricos.
Os anticoncepcionais genéricos, lançados entre o final de 2007 e início de 2008, continuam a chegar no mercado em 2008. Este ano, o segmento será favorecido pela inclusão de importantes medicamentos no mix produtos. Além dos anticoncepcionais, o Clopidogrel - droga cuja proteção patentária estava em disputa judicial em ação movida pelo laboratório Sanofi Aventis contra o Instituto Nacionalde Propriedade Intelectual (Inpi).
Fucapi sedia evento da Rede Norte de Propriedade Intelectual Volta
Mídia Eletrônica: http://portalamazonia.globo.com
31/05/2008
MANAUS - A Comissão dos Estados do Amazonas e Roraima da Rede Norte de Propriedade Intelectual, coordenada pela Fundação Centro de Análise, Pesquisa e Inovação Tecnológica (Fucapi) e Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia (Sect), promove no dia 3 de junho o Seminário Rede Norte e Desenvolvimento Sócio-econômico Regional.
Integrantes de instituições de ensino e pesquisa, bem como pesquisadores e estudantes, estarão reunidos das 8h30 às 18h, no auditório da Fucapi (Avenida Danilo Areosa, 381, Distrito Industrial), para discutir sobre as políticas que regem a gestão da propriedade intelectual e a relação com a biodiversidade e com os conhecimentos tradicionais.
Segundo a coordenadora da Rede Norte no Amazonas, Francisca Dantas Lima, um dos pontos fortes do evento será a Mesa Redonda que vai tratar sobre os problemas e desafios das Redes na proteção do conhecimento tradicional.
O Seminário vai contar também com as palestras “Propriedade Intelectual e o Desenvolvimento Social e Econômico Brasileiro”, ministrada pelo presidente do Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI), Jorge da Costa Ávila; e “Política de Ciência e Tecnologia e a Rede Norte de Propriedade Intelectual no Estado”, proferida pelo secretário da SECT, José Aldemir de Oliveira.
A entrada é gratuita. O interessado em participar deve entrar no portal da FUCAPI, preencher a Ficha de incrição e enviar por e-mail ou pelo fax 3613-2699. Informações podem ser obtidas pelo telefone (92)2127-3090.