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21/02/2008

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Quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008.

Comentários, dúvidas e sugestões:
sercom@inpi.gov.br

 


1. Antigüidade como impulso à formação, inovação e produtividade
2. Marca mais cara ganha espaço no carrinho
3. Marca pode ajudar ação de empresa
4. Brasil é o terceiro país que mais cresce em celulares
5. Sun planta em seu 'campo dos sonhos'
6. Cientistas criam material mais negro
7. Briga do Blu-ray agora é contra a web
8. Terra aposta na internet de alta definição
9. Ética e uso de células-tronco

 


Antigüidade como impulso à formação, inovação e produtividade   volta


Valor Econômico
21/02/2008
 
Um dos principais eixos estruturantes da reorganização do trabalho na nova economia do conhecimento encontra-se diretamente associado ao abandono do modelo taylorista de supervisão direta das atividades laborais. Cada vez mais ganham importância a autonomia do trabalhador e as equipes de empregados voltadas à resolução de problemas e à melhora da qualidade dos sistemas de produção.

O crescente envolvimento da mão-de-obra no processo produtivo permitiu ampliar consideravelmente o ganho de produtividade. Com maior participação, o trabalhador passou a fazer mais e melhor, com maior velocidade e menor custo, desestimulando a adoção de medidas espúrias de atendimento empresarial ao imperativo da competitividade.

De um lado, a crença de que o crescimento do lucro do empregador significaria ao trabalhador maior tempo de emprego e remuneração ampliada desestimulou a desconfiança que tradicionalmente separa o empregado do empregador. Da mesma forma, o acolhimento das contribuições da mão-de-obra pelo patrão implicou efetividade e eficácia crescentes nas funções exercidas (queda na porosidade do tempo de trabalho e no desperdício de material e aumento na durabilidade do equipamento utilizado e na aplicação dos insumos), com inegável redução dos custos de produção.

De outro lado, a formação laboral reconhecida pelo patronato na forma da maior longevidade no emprego na mesma empresa permitiu ao trabalhador converter em investimento o custo da qualificação contínua. Com isso, a inovação no processo produtivo deixou de ser matéria exclusivamente empresarial, para se transformar em assunto de interesse dos próprios trabalhadores.

Nesse sentido, as exigências de flexibilidade no interior do moderno sistema de produção expressaram intensa transição funcional por parte dos trabalhadores, cuja formação contínua se traduzia em mais inovação e, por conseqüência, produtividade superior. Confirma-se, em síntese, a perspectiva dos países que procuram sustentar o crescimento econômico pela via do trabalho com alta produtividade, sobretudo nas atividades de maior valor agregado e intensivo conteúdo tecnológico.

 
Inovação no processo produtivo deixou de ser matéria de exclusividade empresarial para se transformar em assunto de interesse dos trabalhadores
 

Mesmo não se configurando num todo homogêneo, percebe-se que a opção dos países da OCDE (Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico) aponta para a convergência da antigüidade do trabalhador no estabelecimento com produtividade e remuneração positivas. Isso porque perseguiram o imperativo da competitividade na forma da flexibilidade funcional de seus trabalhadores.

Certamente não foi essa a opção brasileira. Ao invés da flexibilidade funcional, preponderou a flexibilidade quantitativa dos trabalhadores. Em outras palavras, o abusivo uso da rotatividade como mecanismo de intensificação primitivo do trabalho sem ganhos consistentes e sustentáveis de produtividade.

Assim, o imperativo da competitividade acaba sendo perseguido com prejuízos ao trabalhador, com soma zero para o país. O empresário se ilude com o ganho no curto prazo, embora se inviabilize no médio e longo prazos. O Brasil também não vai se viabilizar como uma nação sustentada no padrão asiático de emprego, não adianta imaginar que será uma China no continente americano, só que com população menor. A enorme rotatividade da mão-de-obra expressa a opção de internalização do ciclo do fordismo adotado tardiamente no país, cuja produção interna se viabilizou com perda de participação do trabalho na renda nacional por meio da economia fechada e subdesenvolvida.

O futuro do desenvolvimento sustentável está na flexbilidade funcional, não quantitativa (rotatividade). Entre 1980 e 2005, o Brasil ceifou 1/5 do poder aquisitivo do trabalhador enquanto a produtividade permaneceu estagnada, expondo sinais crescentes do atraso nas relações de trabalho. Dessa forma, a menor longevidade na empresa leva a menores salários, menor formação, contida inovação e produtividade estancada. Urge reinventar o regime de trabalho no Brasil. Incluir os informais e ampliar o tempo de serviço na mesma empresa somente com maior produtividade e formação contínua no próprio local de trabalho. Esses, entre outros requisitos da nova economia do conhecimento encontram-se atualmente esvaziados do sistema de relações de trabalho.

A revitalização do regime de trabalho pode muito bem começar com a introdução da Convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho. Ao invés da choradeira tradicional dos defensores do atraso, que somente consideram a competitividade fundada nas medidas espúrias do padrão de emprego asiático, chegou a hora da verdadeira modernização.

É o futuro do Brasil que está em jogo. Atualmente, patrões e empregados podem ser os portadores da boa nova, que não passa pela continuidade. O moderno é ser e fazer diferente, conduzido pela convergência da antigüidade como propulsora da formação, inovação e da verdadeira produtividade.

Marcio Pochmann é presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e professor licenciado do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas. Escreve mensalmente às quintas-feiras.

 


Marca mais cara ganha espaço no carrinho   volta


Valor Econômico
Daniele Madureira
21/02/2008


O carrinho de compras do brasileiro está cedendo espaço a mercadorias mais caras. É o que aponta o relatório consolidado da Nielsen em 2007, que mede o consumo de oito cestas de produtos em 36 milhões de lares em todo o país, com exceção da região Norte. Não só categorias consideradas supérfluas vêm sendo consumidas por cada vez mais gente - com destaque para refrigerante, bebidas a base de soja, iogurte, coloração para cabelo, fralda e amaciante -, como também a compra dos produtos em geral não tem sido pautada exclusivamente por preço. Pelo contrário: em higiene pessoal, por exemplo, cresceu um ponto percentual o consumo das marcas mais caras, enquanto que a demanda em torno das mais baratas caiu 1,2 ponto percentual.

"O aumento geral da renda, que incentivou a entrada de milhares de novos consumidores em categorias mais sofisticadas, também fez com que aqueles que já consumiam os produtos buscassem itens de maior valor agregado", diz Filipe Abolafio, coordenador de análises da Nielsen. Segundo ele, mais de um milhão de lares que não compravam coloração para cabelo em 2006 passaram a fazê-lo no ano passado, com destaque para consumidores de nível sócio econômico baixo. "O mesmo aconteceu com fraldas e iogurtes", diz.

O interesse por esta última categoria foi sentido no caixa da Danone. Segundo a fabricante de produtos lácteos, a marca Activia, lançada há quatro anos no Brasil com o apelo de regularizar o intestino preguiçoso, já significa 40% das suas vendas. "O maior avanço foi registrado ano passado, quando fizemos um esforço concentrado em torno dos benefícios do produto", afirma a gerente de pesquisa de mercado da Danone, Claudia Zuppo. As ações englobaram campanha publicitária, degustação em ponto-de-venda e uma pesquisa que identificou quantos brasileiros sofrem de intestino preguiçoso (35% da população). Com o resultado em mãos, a Danone enviou nutricionistas a consultórios médicos para divulgar o produto.

"Todo o nosso empenho está em mostrar que o iogurte não é algo supérfluo, mas que faz parte da cesta básica", diz Cláudia. O foco está nas marcas mais caras. Além de Activia (que custa entre 20% e 25% a mais do que uma polpa comum), a Danone também quer convencer as mães de que um petit suisse (com preço até 20% maior) é melhor para os pequenos do que uma simples polpa de frutas.

A AmBev, dona de 68,2% de participação em cervejas e de 18% em refrigerantes, vai pelo mesmo caminho. No ano passado, acompanhou a Pepsi no lançamento da H2OH!, uma bebida gaseificada com suco de limão, sem açúcar, para realçar a diferença em relação aos produtos mais baratos, popularmente conhecidos como "tubaínas". Segundo o porta-voz da AmBev, Alexandre Loures, os itens mais baratos estão perdendo vendas. "Em 2005, as tubaínas somavam 32% de participação em refrigerantes; em dezembro de 2007, atingiram 26%", diz ele. De acordo com a Nielsen, mais de 600 mil lares passaram a comprar refrigerantes no ano passado. Entre os consumidores de maior renda, o aumento na quantidade média comprada foi de 10 litros.

Em 2007, a AmBev também avançou na oferta de cervejas mais caras. "Importamos nove rótulos, que custam em torno de 15% a mais do que a média do mercado", afirma Loures. Segundo ele, as cervejas premium representam cerca de 7% das vendas da AmBev. O consumo de bebidas alcoólicas, por sinal, foi a cesta que registrou o maior aumento de vendas no relatório da Nielsen: alta de 7,1%.

O segundo maior crescimento veio de perecíveis (7%), que envolve itens refrigerados. No total das categorias auditadas, o consumo aumentou 3% em volume e 4,1% em faturamento. Os preços cresceram 1,1%, já descontada a inflação.

 



Marca pode ajudar ação de empresa   volta


Valor Econômico
De São Paulo
21/02/2008
 

A forte queda das bolsas internacionais representa a chance de as empresas brasileiras mostrarem que estão em boas condições financeiras, atraindo os investidores estrangeiros para seus papéis e reforçando suas marcas. A avaliação é de Eduardo Tomiya, sócio da BrandAnalytics, consultoria de gestão de marcas.

Tomiya diz que essa preocupação em se diferenciar ganha importância ainda maior quando grandes marcas do mesmo setor sofrem com a descrença dos investidores ao redor do mundo. Ele dá o exemplo do Bradesco, que divulgou seu balanço com bons resultados no momento em que outras instituições como Citigroup, Bank of America e UBS informavam ao mercado fortes prejuízos. "Esse é o momento de as empresas brasileiras mostrarem suas marcas ao mercado, que ainda não diferencia muito quem é quem nessa crise", explica. Um sinal dessa má avaliação dos investidores, diz, é a forte saída de investidores estrangeiros da Bovespa em janeiro, que chegou ao recorde de R$ 4,731 bilhões, apesar de as empresas locais estarem divulgado resultados excepcionais.

"Num segundo momento, a bolsa brasileira se recuperou, até mais do que a americana, em função da qualidade das empresas locais", destaca Tomiya. Para ele, o caso do Bradesco é exemplar, uma marca valiosa que chegou a ter o mesmo valor de mercado da Merrill Lynch. "Existe um espaço muito grande para as marcas brasileiras capitalizarem este momento", diz.

Tomiya lembra que o que está acontecendo no exterior é que as perdas estão atingindo também as marcas fortes, como JP Morgan ou Citibank. "Há um limite para o que a marca consegue impedir de desvalorização para o acionista."

Para ele, as empresas brasileiras devem antecipar resultados, mostrar a sua realidade e a do país, os números da economia e o potencial de crescimento daqui. "Podemos mostrar que temos empresas sólidas com marcas fortes, e chegar ao pequeno investidor lá de fora também." (AP)


 

Brasil é o terceiro país que mais cresce em celulares   volta


Valor Econômico
Assis Moreira
21/02/2008
 
O Brasil foi o terceiro entre os países que mais atraíram novos assinantes de celular em 2007, União Internacional de Telecomunicações (UIT). Ficou atrás apenas da China e da Índia.

Nada menos de 21 milhões de telefones móveis foram habilitados no mercado brasileiro no ano passado, um crescimento de 17% nesse segmento das telecomunicações. Agora, 120,9 milhões de pessoas têm celular no país, ou 63,6% da população.

O crescimento só foi maior na China, com 79 milhões de novos assinantes, e na Índia, com 45 milhões - o que se explica pelo tamanho de suas populações e pela fase em que se encontra o mercado de celular nesses países. A Rússia ficou em quarto lugar, com 20 milhões, logo atrás do Brasil.

Esses quatro países, que constituem os chamados Brics, tinham juntos quase um bilhão de usuários de celular em 2007, ou um terço do total mundial. Somando com os usuários nos Estados Unidos, Japão e Indonésia, os sete países têm metade dos telefones móveis no mundo.

Segundo a UIT, o número total de detentores de telefones fixos e/ou móveis aumentou, globalmente, de 1 bilhão em 1997 para 4,2 bilhões em 2007. A maior expansão foi nos celulares. Desde 2000, os usuários de telefonia móvel cresceram 20 vezes, representando 70% de todos os assinantes de telefones.
Essa expansão foi utilizada ontem pela Organização Mundial do Comércio (OMC), num seminário, para argumentar que o acordo de liberalização do setor de telecomunicações assinado em 1998 tem sido um sucesso.

Ocorre que justamente o Brasil, onde houve uma das maiores altas, até hoje não ratificou o acordo e a Rússia tampouco faz parte da entidade. Em 2001, o Brasil dispôs-se a assinar o compromisso da OMC, mas alguns países não o quiseram, porque a Lei Geral de Telecomunicações brasileira permite ao presidente da República bloquear a entrada de investimento estrangeiro no setor. Nas atuais negociações da Rodada Doha, o Brasil fez ofertas de liberalização no setor, mas manteve o artigo com o poder presidencial.

Ontem, Pascal Lamy, diretor-geral da OMC, voltou a pedir aos países para melhorar suas ofertas de liberalização. Argumentou que reformas ampliaram o acesso global de telecomunicações de 15% em 1999 para mais de 60% em 2006, e o faturamento do setor pulou de US$ 620 bilhões para US$ 1,4 trilhão nesse período.


 

Sun planta em seu 'campo dos sonhos'   volta


Valor Econômico
João Luiz Rosa
21/02/2008
 
Com rabo-de-cavalo e ar juvenil, Jonathan Schwartz não lembra em nada o hoje cinqüentão Kevin Costner. Mas sua estratégia para a Sun Microsystems - cujo comando assumiu há dois anos, quando tinha apenas 40 anos de idade - lembra a do personagem interpretado pelo ator em "O Campo dos Sonhos". No filme, de 1989, um fazendeiro decide construir um campo de baseball no meio de seu milharal depois que começa a ouvir uma voz misteriosa: "Se você construir, ele virá". "Ele", no caso, é o fantasma de um campeão do passado e seus companheiros de time, que voltam à vida para jogar no campo de Kostner.

Para restituir a antiga glória da Sun, Schwartz está convertendo os principais tesouros da empresa em software de código aberto. Isso significa que os programas estão sendo colocados de graça na internet e que seus códigos - o DNA dos sistemas - passaram a ficar abertos às mudanças propostas por programadores do mundo inteiro. A lista de produtos convertidos ao "open source" incluem o sistema operacional Solaris e a linguagem Java. Nem os chips Sparc escaparam. Em dezembro, a Sun anunciou a criação do OpenSparc, revelando as especificações de um dos processadores da família.
Este é o campo dos sonhos de Schwartz. Para o executivo, se a Sun for hábil em construir essa estratégia, "eles" virão: primeiro, os programadores, capazes de criar novas funções para as tecnologias da empresa, ajudando a disseminá-la em todos os lugares. Depois, virão os usuários, que se beneficiarão das novidades, mesmo sem pagar por elas. Finalmente, chegarão os consumidores - que, entusiasmados com as inovações, acabarão buscando os produtos e serviços mais caros da Sun, como seus computadores de alto desempenho.

"A alma da companhia não mudou", diz Schwartz, em uma sala de reuniões no campus da Sun em Menlo Park, na Califórnia. "O que mudou drasticamente é nosso foco em comunidades e desenvolvedores. O que fizemos nos últimos dois anos é reconstruir a Sun abraçando completamente a comunidade de desenvolvedores."

Bem-articulado e falante, Schwartz afirma que as companhias são, obviamente, um público fundamental para a Sun. "Afinal, foram elas que nos levaram a obter um faturamento de US$ 3,6 bilhões no trimestre fiscal mais recente", diz. Mas o ponto que ele tenta provar é que o público formado pelos chefes de tecnologia das grandes empresas - os homens com decisão de compra no mundo da tecnologia - não é o único que interessa. Há também os governos, os estudantes, as empresas iniciantes - e é preciso descobrir uma maneira de servir a cada um desses públicos.

Nesse sentido, os programadores representariam o futuro, não só porque podem tornar-se os criadores de negócios promissores, garantindo à Sun clientes de peso que ainda estão para surgir, mas também porque são eles as pessoas capazes de criar aplicações novas para as tecnologias da empresa. "A questão não é como manter os US$ 3,6 bilhões, mas como construir outros US$ 3,6 bilhões. É por isso que o foco não pode estar apenas nos negócios de hoje, mas nas oportunidades de amanhã", afirma Schwartz.

Os primeiros resultados parecem compensar a fé de Schwartz, que assumiu o comando da Sun sob o ônus de substituir o briguento Scott McNeally, co-fundador da companhia e um ícone da indústria de tecnologia da informação. No ano fiscal 2007, encerrado em junho do ano passado, Schwartz conseguiu o feito de levar a empresa de volta ao azul, depois de anos sucessivos de prejuízo. A companhia registrou um lucro líquido de US$ 473 milhões, revertendo o prejuízo de US$ 873 milhões de 2006. Resultados mais recentes também mostram sinais positivos. No segundo trimestre do ano fiscal 2008, fechado em 30 de dezembro, a Sun apresentou lucro líquido de US$ 260 milhões, quase o dobro dos US$ 133 milhões obtidos no mesmo período de 2007.

O problema é que, a despeito desse resultado, a Sun tem sido lenta em fazer seus negócios avançarem. Entre 2006 e 2007, as vendas aumentaram de US$ 13 bilhões para US$ 13,8 bilhões, com crescimento de 6,1%, bem abaixo da evolução de outras gigantes do setor. Só para citar algumas, a Hewlett-Packard (HP) cresceu 13,7% no período; a Microsoft, 15,6%; e a Apple, 24,3%.

Os investidores também não parecem animados. Apesar de a empresa voltar ao lucro, suas ações continuam a patinar. Os papéis, que eram negociados a US$ 16,76 em dezembro de 2005, chegaram a US$ 26,56 em janeiro de 2007 - sua maior alta nesse período -, mas entraram em queda e neste mês estão sendo negociadas a um preço médio de US$ 17,30.

A pergunta que investidores e analistas talvez estejam fazendo é: quando a estratégia de Schwartz vai se reverter em vendas mais robustas e ganhos sustentáveis em longo prazo? Ou, trocando em miúdos, como ganhar dinheiro com tudo isso?

"No trimestre passado fizemos US$ 300 milhões em caixa, com um aumento de mais de 7% na margem operacional. Então, estamos muito confortáveis com nossa estratégia de download", responde Schwartz ao Valor. Em seguida, ele faz uma analogia. "Ninguém pergunta ao presidente da Telefónica no Brasil quanto dinheiro ele ganha com a venda de aparelhos porque isso é irrelevante. A única medida que importa é o número de assinantes." O ponto, diz o executivo, é que embora não seja importante do ponto de vista financeiro, é o aparelho que permite à operadora de telefonia oferecer seu conjunto de serviços - esse, sim, a fonte de lucro. Na comparação, os sistemas da Sun são o aparelho com o qual a companhia pretende ganhar muito dinheiro, mais à frente, com produtos e serviços.

Fiel a essa abordagem, Schwartz tem agregado peças a seu quebra-cabeças. Em janeiro, gastou US$ 1 bilhão para comprar a sueca MySQL, companhia que fornece software de banco de dados de código aberto e mais recentemente adquiriu, por meio de um acordo de ações, a Innotek, especializada em software de virtualização (a criação de computadores virtuais dentro de máquinas reais), também baseada em "open source".

Schwartz tem um dos blogs - os diários virtuais da internet - mais famosos do mundo da computação. Ele diz dedicar bastante tempo ao blog, traduzido em 11 línguas, incluindo o português, porque seu trabalho é fundamentalmente comunicar-se com os outros, sejam acionistas, funcionários, programadores etc. "É preciso explicar porque faço isso ou aquilo", diz. A questão é se esses públicos vão entender a proposta de Schwartz em tempo hábil para permitir que a Sun dê uma reviravolta definitiva. No filme de Kostner, uma infindável fila de carros vem a seu milharal para ver os heróis de outrora. Resta saber se Schwartz conseguirá criar uma lista igualmente formidável de consumidores.

O repórter viajou a convite da Sun

 



Cientistas criam material mais negro   volta


O Estado de São Paulo
The New York Times
21/02/2008


Cientistas do Instituto Politécnico Rensselaer, no Estado de Nova York (EUA), anunciaram ter criado um material com espessura de papel que absorve 99,95% da luz que incide sobre ele. De longe, trata-se do material mais negro já criado.

 


Briga do Blu-ray agora é contra a web   volta

DVDs terão de disputar mercado com os downloads


O Estado de São Paulo
21/02/2008


A Sony venceu a guerra dos formatos de DVDs de alta definição contra a rival Toshiba, mas deve enfrentar uma briga ainda mais séria para convencer os consumidores a adquirir discos Blu-ray, no momento em que os consumidores estão à espera da era do download.

O atual plano trienal de negócios da Sony se encerra em 31 de março, e o presidente-executivo do grupo, Howard Stringer, também tem de convencer os investidores de que desenvolveu uma nova estratégia de crescimento para a companhia, diante da forte pressão dos concorrentes.

“O final da guerra de formatos não garante automaticamente a adoção do Blu-ray”, disse Kazuharu Miura, analista do Daiwa Institute of Research. “O grande desafio é como comunicar os benefícios do Blu-ray aos potenciais usuários que já dispõem de aparelhos de DVD.”

A Toshiba anunciou na terça-feira que vai abandonar a produção do formato rival HD DVD, deixando o grupo liderado pela Sony livre para disputar o mercado mundial de filmes domésticos, que movimenta cerca de US$ 24 bilhões ao ano.

Mas a Sony herdou essa posição em um momento no qual os consumidores estão cada vez mais ignorando os filmes e jogos vendidos em forma de disco, e optando pelo download. “Acreditamos ser altamente provável que a internet se torne o método básico de distribuição de conteúdo visual, da mesma maneira que no caso da música”, disse, em nota, Yukihiko Shimada, analista da Mitsubishi UFJ Securities.

Especialistas do setor, porém, dizem que demorará algum tempo para que a infra-estrutura do setor ganhe força suficiente para permitir que as pessoas baixem filmes de longa-metragem e alta resolução com prazos e custos razoáveis.

A Sony também pretende operar nesse mercado. Stringer disse em dezembro que vê o serviço online de distribuição de conteúdo para o PlayStation, o PlayStation Network, como propulsor essencial de crescimento para a empresa japonesa.

A empresa anunciou que seu console de videogames iria ter também um reprodutor de Blu-ray mais de dois anos antes de as vendas serem iniciadas, em um esforço para ganhar apoio para seu formato na guerra contra o HD DVD.

Mas está pagando caro por tentar buscar os compradores de filmes de alta definição. Os custos da função Blu-ray e do processador de alto rendimento necessário para a tecnologia obrigaram a empresa a assumir perdas com a venda dos videogames.

DOWNLOAD

A discussão sobre o futuro dos downloads de filmes é uma das mais importantes atualmente no mundo do entretenimento. Recentemente, a Apple anunciou o lançamento de um serviço de aluguel de filmes via internet. A empresa anunciou a oferta de mais de mil filmes para aluguel online pelo site iTunes, com custo de US$ 2,99 para filmes mais antigos e US$3,99 para lançamentos.

Os usuários podem assistir o filme imediatamente enquanto fazem o download, ou baixá-lo e esperar até 30 dias para vê-lo, mas tendo 24 horas para chegar ao final após começar a assistir. A Microsoft também já oferece serviços de download de conteúdo não relacionado a jogos, como programas de televisão. REUTERS



Terra aposta na internet de alta definição   volta


Gazeta Mercantil
21/02/2008


A aposta do portal Terra no momento é oferta de conteúdo multimídia em alta definição. Uma das primeiras cartadas nesse campo foi apresentada no final do ano passado e recebe o nome de Terra TV HD (High Definition). A estratégia da empresa se baseia no fato de que a rápida expansão dos serviços de banda larga no País viabilizam a distribuição de conteúdo de vídeo cada vez mais sofisticados. Em última instância, essa conjuntura de mercado - aliada a outros fatores, como os programas de inclusão digital desenvolvidos pelo governo e o bom momento econômico do País - pode se refletir positivamente na publicidade, despertando um maior interesse por pare de agências e empresas. Pelo menos essa é a expectativa de Paulo Castro, diretor geral do Terra e presidente do IAB (Interactive Advertising Bureau), entidade que representa o setor de internet. Nesta entrevista, ele analisa também os desafios que se impõem para o mercado de web no Brasil.

Gazeta Mercantil - Qual a grande tendência nos negócios do Terra?

Consolidamos nosso posicionamento como empresa multimídia. É um processo de constante renovação. No ano passado lançamos o Terra TV HD, e essa é uma de nossas apostas: levar serviços de alta definição por meio da internet. Mas nossa aposta principal é o Terra TV (espaço de conteúdo televisivo) , agregando mais conteúdo a ele. Estamos entregando controle remoto dessa TV na mão do usuário. Não é uma TV com vários canais, como no modelo tradicional. Todo o controle está na mão do cliente. É ele quem decide o quê, quando e como assistir. Ainda que tenhamos o Terra TV há muitos anos, promovemos de 2006 para cá houve uma virada, e agora, em 2008, de uma forma mais marcante. Em 2006, licenciamos o conteúdo de Copa do Mundo para a internet, algo que nunca havia sido feita para um portal. Em 2007, agregamos vários conteúdos de esportes (campeonatos português, italiano, alemão) e, no final de 2007, lançamos muitas séries e filmes. Exemplo: o conteúdo de Lost, Desperate Housewives, estão disponíveis, abertos.

Gazeta Mercantil - Uma das questões debatidas no mercado de internet é a padronização de formatos das peças publicitárias veiculadas nesse meio. Por que esse tema é importante para o setor?

Para a indústria crescer, é preciso haver padronização de formatos. O IAB se esforça para alcançar esse objetivo, e conta para isso com a ajuda dos portais. Já há alguns formatos padronizados disponíveis no mercado. Por outro lado, reconhece-se que uma das vantagens da internet é a flexibilidade de formatos. Como há 40 milhões de usuários de web no Brasil, segundo dados do Ibope Net/Ratings, entendemos que internet hoje é a segunda mídia de maior abrangência, perdendo apenas para a TV aberta. O rádio chega a 40 milhões de pessoas? Chega. Só que com a internet a empresa se comunica com 40 milhões de usuários, bastando para isso programar campanhas em apenas cinco ou seis dos maiores veículos de web. No rádio, isso é impossível. Nenhum profissional de mídia conseguiria fazer uma programação para alcançar 40 milhões de ouvintes. E, quando comparada com a TV, a rede mundial de computadores tem uma flexibilidade muito grande, seja em formato, seja em segmentação. Fala-se tanto na interatividade que a TV digital poderá proporcionar no futuro. Hoje, no entanto, é possível fazer segmentação na internet. Há a possibilidade, por exemplo, de enviar mensagem publicitária de acordo com a região geográfica, fazer mensagem dirigida. A flexibilidade de formatos é importante para facilitar o trabalho da agência e dos anunciantes.

Gazeta Mercantil - Mas, se a internet é a segunda mídia de maior abrangência, porque ela detém apenas cerca de 3% de participação do total de verbas do mercado publicitário?

Algumas das coisas relacionadas a essa situação começam a ser resolvidas agora. O Terra TV (canal de conteúdo de vídeo), por exemplo, tem sido muito bem recebido pelo mercado publicitário. Um exemplo são as cotas de patrocínio para as Olimpíadas comercializadas nesse produto. Iniciamos a comercialização em outubro, e em novembro as quatro cotas principais já estavam vendidas. Isso não era comum no mercado de internet. E foram adquiridas por grandes anunciantes: Bradesco, Ford, Sadia e Telefônica. Os dois primeiros já investem na internet com freqüência há alguns anos. O Bradesco enxerga essa mídia como um canal importante - assim como Itaú e Real, também clientes nossos. As montadoras também pensam assim. Mas Sadia não investia em internet. Para eles, comprar uma cota para Olimpíadas é um salto grande. Outro anunciante novo no meio é o Carrefour, que estreou campanha há pouco tempo. Somados, exemplos como esses nos proporcionaram um 2007 muito bom. A receita de publicidade do Terra cresceu 30% no ano passado.

Gazeta Mercantil - Há quem argumente que a expansão mais acelerada do faturamento do meio internet esbarra nas agências de publicidade, que não dispensariam muita atenção essa mídia, pelo fato de as verbas obtidas com o comissionamento das campanhas de web serem são muito menores que as da TV. Você concorda com esse pensamento?

É preciso derrubar alguns mitos. Com 40 milhões de usuários, o Brasil aparece como o sexto maior mercado de internet do mundo. Temos mais internautas que a França, Espanha, Itália. E ainda assim ouve-se de vez em quando que o mercado brasileiro de web não tem massa crítica para alguns projetos de publicidade. Outro mito é o de que a internet no País é elitizada. Não é verdade. É claro que as classes A e B têm um percentual de participação maior, a classe C um pouco menos. Mas há pessoas de todas as classes sociais na web. Há um fenômeno de uso em cibercafés, espaços públicos como telecentros, escolas, universidades. Isso sem falar no fato de que o crescimento do parque de computadores abre a web para as classes C e D. Nos últimos dois anos foram registradas vendas muito elevadas de PCs no Brasil. E o governo federal também enxergou que a inclusão digital é uma forma de promoção social. Há uma série de movimentos que levam as pessoas para o uso da internet.

Gazeta Mercantil - O BV (Bonificação sobre Volume), valor repassado às agências pelas emissoras de TV para estimular a veiculação de campanhas, é um obstáculo para a ampliação das receitas publicitárias das empresas de internet?

Sim. O BV é um instrumento de fidelização da mídia. Na medida em que ele atrela o valor que a agência recebe à continuidade de investimento na mídia tradicional, certamente é um fator de decisão. Há motivos que se relacionam para atrapalhar o crescimento das outras mídias.

Gazeta Mercantil - Como reverter esse cenário?

Vivemos mundo cada vez mais globalizado. E as grandes empresas recorrem a especialistas, que cada vez mais recomendam o uso da mídia interativa. Há países muito importantes para a publicidade em geral cujas verbas de internet são mais generosas. O meio internet nos EUA, por exemplo, fechou 2007 com 9% do faturamento do mercado publicitário. Na Inglaterra chegou quase a 12%. Situações como essas provocarão uma mudança.

Gazeta Mercantil - Os portais defendem uma revisão nos cálculos a respeito do alcance geográfico da oferta de serviços de acesso à internet no Brasil. Por quê?

Esse assunto diz respeito a outro mito. Algumas pessoas dizem: "É lamentável que só 200 cidades no País tenham acesso à internet banda larga". E eu respondo que não é verdade. Só o Terra, por exemplo, comercializa esse serviço em mais de 1600 cidades. E estou falando de oferta de acesso por tecnologia Adsl, por meio das operadoras Brasil Telecom, Telefônica, Telemar, GVT, ou de banda larga via cabo. Não estou falando de acesso por satélite, rádio e linha discada. Uma das questões que encabeçamos no IAB, na qual procuramos envolver o Comitê Gestor da Internet, é justamente a necessidade de identificar a população de internet cujo acesso se dá por meio de provedores de rádio. Há muitas empresas que oferecem esse serviço a populações remotas que estão em cidades pequenas ou áreas rurais, algo não computado hoje. Também é muito importante que haja a aferição do acesso em cibercafés, lan houses e espaços públicos. É muito difícil encontrar uma cidade que seja tão pequena a ponto de não ter pelo menos um cibercafé.

Gazeta Mercantil - O Projeto Inter-Meios, responsável por aferir faturamento do mercado publicitário, não mensura as verbas aplicadas em ações em redes sociais (sites de relacionamento) ou links patrocinados, o que faz executivos de internet dizerem que os negócios de web são maiores do que o registrado oficialmente. O que você pensa a respeito?

Dois aspectos da publicidade on-line - os links patrocinados e o que chamamos de publicidade contextual, com palavras-chaves, e redes sociais - não são medidos hoje. Existe um trabalho de convencimento dos competidores mais importantes desse mercado para que eles passem a informar (seus dados). O Inter-Meios se baseia - e isso vale para todas as mídias - na declaração do faturamento passada pelos veículos, de forma confidencial. E o dado de nenhum veículo é revelado separadamente. Divulga-se o faturamento do mercado. O que acontece é que os dois principais jogadores desse setor, o Google e o Yahoo, adotam como política não passar suas informações, mesmo que seja de forma confidencial. Isso se deve a questões relacionadas a Bolsa de Valores etc. O IAB trabalha para que tenhamos esses dados.

Gazeta Mercantil - Na hipótese de se contar com os dados de Google e Yahoo, para quanto deve subir a participação da internet no faturamento publicitário?

Deve crescer um pouco, mas ainda assim estaria subestimada em relação à importância da internet na vida das pessoas, ou seja, a web vale mais na vida das pessoas do que os 2,7 % que ela representa no mercado. Veja a TV por assinatura, que está próxima dos 3% de participação. No limite, ela alcança 5 milhões de domicílios, num total de 15 milhões de pessoas alcançadas no Brasil. A internet alcança 40 milhões. Falando em TV por assinatura, também há um outro aspecto que para nós é importante. Com os formatos publicitários oferecidos no Terra TV, como filmes de 15 ou 20 segundos, aproximamos a linguagem publicitária da internet do meio que mais recebe investimentos no Brasil, a TV. Esta é uma vantagem que a TV por assinatura tem hoje: a agência não precisa criar para a TV paga, porque é o mesmo filme já desenvolvido para a TV aberta. Basta veicular. O meio internet acaba então exigindo das agências uma produção extra.

Gazeta Mercantil - Assim como o Terra, os principais portais do mercado investem cada vez mais em conteúdo de vídeo, como filmes, séries. Por conta disso, é possível afirmar que a internet corre atrás da TV?

A experiência que oferecemos é mais rica que a da televisão. Em primeiro lugar porque realmente o controle está com o usuário. Ele vê quando e como quiser. Em segundo, pela quantidade de conteúdo. Um exemplo são os Jogos Pan-americanos, no ano passado. Transmitimos com 11 sinais de vídeos simultâneos. Na TV aberta você ver um sinal, na fechada, uns dois ou três. O que eles vão mostrar? Se tiver sinal do futebol, é o futebol. Do vôlei, é o vôlei. Mas nós, com 11 sinais, mostrávamos todo o evento. Tem uma riqueza de oferta de conteúdo que a TV não dá. Por conta disso, não consigo ver a internet correndo atrás da TV. Existe um movimento de convergência. Por outro lado, a TV vai correr atrás da web no que se refere à interatividade que se propõe para a TV digital. Tal como está hoje, ela é uma TV de alta definição. No futuro, ela pode ser mais interativa, mas dificilmente lançará o nível de interatividade da internet, no sentido de possibilidade de participação.


 

Ética e uso de células-tronco  volta


Correio Braziliense
Artigo - Marco Segre
21/02/2008


Membro do Conselho Diretor da Comissão de Cidadania e Reprodução (CCR), professor emérito da Faculdade de Medicina da USP

A notícia de se poderem obter células-tronco a partir de tecido cutâneo de pessoas, introduzindo nas células genes específicos que as fariam regredir a situação semelhante à das células-tronco, deixou-me atônito e esperançoso. As células-tronco, sabemo-lo, são células totipotentes, tendo a capacidade de, desenvolvendo-se, gerar praticamente todos os tecidos do organismo humano com estrutura genética idêntica à do sujeito doador. A importância decisiva da descoberta vincula-se à possibilidade de regeneração de tecidos irremediavelmente lesados, como ocorre na doença de Parkinson (tecido nervoso), em leucemias, doenças cardíacas, hepáticas e outras. Tem sido um dos grandes desafios da ciência médica, durante as últimas décadas, a substituição de tecidos e órgãos doentes por elementos sãos, tendo sido essa a motivação de transplantes de órgãos com seu acervo de vantagens e também de riscos.

Logo, a perspectiva de obter células-tronco a partir de pele é alentadora. No momento atual, as células-tronco são obtidas basicamente a partir de embriões humanos de poucos dias, produzidos pela inseminação in vitro de óvulos femininos por espermatozóides. Essa prática também é nova, promissora, e se situaria ao lado da prática da clonagem de células humanas, não havendo, nesses casos, nem necessidade de fecundação.

Vemos assim que o avanço científico pode ir proporcionando a cura de doenças e o alongamento da vida humana. Todo avanço produz, entretanto, medo em certas categorias da sociedade, mormente se aparentemente afronta alguns dos tabus criados por grupos conservadores, precisamente, as religiões.

Tome-se como exemplo o tabu da demarcação do início da vida humana. A vida não se inicia na fecundação do óvulo. Esse episódio é apenas uma das etapas (sob o ponto de vista orgânico) da construção de um novo ser. É importante não confundir ciência com crença. Cientificamente se pode dizer que, na fecundação, o espermatozóide penetra no óvulo, há uma soma de genes, e inicia-se a produção das outras células, que, em conjunto, constituirão o novo ser. Mas a vida começou antes, no espermatozóide e, separadamente, no óvulo. Na fecundação, apenas ocorreu a somatória dos genes dos progenitores.

Tantas ocorrências e intercorrências poderão sobrevir durante o desenvolvimento do embrião assim gerado, que viabilizarão, ou não, um futuro nascimento. Soa incoerente que se atribua ao fato toda essa abissal importância na demarcação do início da vida. Nos dizeres de Santo Thomaz de Aquino, por exemplo, a vida se iniciaria 40 dias depois da coabitação, no feto macho, e 80 dias após o evento, no caso da fêmea.

Fique, portanto, claro que o desenvolvimento da vida é um continuum e que são fatores culturais que, para fins de convívio harmônico das sociedades, lhe demarcam o início. E, no caso da clonagem, quando não há fecundação, dir-se-á que não houve vida? A ovelha Dolly não viveu?

Toda crença é respeitável, mas é primitivo querer impingi-la a quem não a tem. No judaísmo, outro exemplo de crença, a vida se iniciaria no momento da expulsão, pela mãe, da cabeça fetal. Poderíamos por isso depreender que o início da vida é mais tardio na apresentação podálica (a pélvis do nascituro é expulsa antes do que a cabeça).

Já disse que a perspectiva de utilizar células-tronco a partir da manipulação de células cutâneas aponta para horizontes novos, em face da oferta maior de recursos terapêuticos em medicina. Mas, se nós também quisermos bancar os advogados do diabo, poderemos dizer que essa regressão induzida de células caminha contrariamente ao sentido da natureza, que poderá inclusive originar células cancerígenas (o que já se teme) e que agir contra os desígnios de Deus é inaceitável?

Dessa maneira, se quiséssemos, consideraríamos pecaminosos todos os progressos científicos, inclusive o de elevarmos a expectativa média da vida humana de algumas décadas. Será que é isso realmente que Deus quer?